minutos de frivolidade e outras aventuras
outros textos serão enviados entre um minuto e outro. (todas as fotos publicadas aqui são de thiago aquino)
sábado, 12 de novembro de 2011
minutos de frivolidade: LX
[Prezados leitores: com este, encerro os Minutos de Frivolidade. Tenho escrito outras coisas que seguirei compartilhando por aqui.]
O minuto restante
é metade memória
e metade anunciação.
É um pingente,
uma conta do Rosário
que adorna o colo
de uma deusa
expulsa do Olimpo.
Um signo
de nenhum zodíaco.
sábado, 5 de novembro de 2011
minutos de frivolidade: LIX
Meu canto decaído,
estropiado, danado,
não é rouco
é tímido, somente.
E disfarça sua angústia
com modéstia.
E se acanha
porque só alcança
as coisas baixas.
Mas é fatal, inevitável.
Não morro se não canto,
emudeço, apenas.
Mas me perco,
que é pior que estar arruinado.
Eu não rezo.
Dou bom dia.
Não falo para os céus,
como os sinos terríveis
e estridentes.
O que sai da minha boca
é para o pé do ouvido,
é para um sorriso,
é só um pouco mais
que silêncio.
sábado, 29 de outubro de 2011
minutos de frivolidade: LVIII
Para a filha ou filho de Mira e Nico
1.
No ônibus,
A pequenina dormia frouxa
No colo de sua mãe
Que tinha uma fisionomia cansada
E os olhos preocupados.
A mãe pegou a mão da miúda,
Beijou e cheirou com força
Como quem toma um fôlego fundo.
2.
Minha mãe
Se debruçou sobre os meus ombros
De homem feito
E me abraçou apertado.
O gesto era a soma de todos os cuidados acumulados
No labor interminável
De me alimentar.
3.
Dona Sandra
Se emaranhava nos cabelos de Isis
E tudo fazia sentido.
Naquele labirinto de fios negros,
Era difícil entrever a cicatriz
Que confundia seus sorrisos.
4.
Érica Pedroza
Assumiu prematuramente
A tarefa de ensinar Kelly a cuidar de seus cadernos.
Seu caderno, hoje, é absolutamente impecável
E as duas falam uma língua
Que inventaram
E que só elas entendem.
5.
Marcio Rosa
Deixou a profissão para cuidar de Tiago e Fafá
E se tornou mestre inigualável
No ofício de poeta.
Compõe pequenas pistas de poesia
Nas frestas do cotidiano
E nos álbuns de fotografias.
A história do mundo
É mesmo a história
Dessa gente maluca
Que vive perigosamente
Que faz do amor a causa urgente.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
minutos de frivolidade: LVII
Eu invento uma frase
que carrego como um patuá
contra o mau olhado e a boca daninha.
E toda manhã a recito
e toda manhã a esqueço.
Eu carrego uma frase
que reduza a opacidade,
mas ela não ilumina.
Eu a escondo do mundo
Para que ele não a decifre.
O mundo permanece
essa máquina óbvia
de entranhas transparentes.
Eu teimo com meus feitiços,
meus encantamentos de bolso.
domingo, 21 de agosto de 2011
minutos de frivolidade: LVI
O que eu trago
entre as mãos,
– não tenha medo –
não é belo
nem feio
não é velho
nem novo
não é segredo
nem enigma
não é critério
nem questão
não é memória
nem esquecimento.
É só um mistério,
um brinquedo.
É um fragmento,
um pedaço do tempo.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
minutos de frivolidade: LV
Na rua Salvador de Sá,
em frente à Escola do Estácio de Sá,
na tarde madura,
a luz vespertina
revelava mais os rostos
atrás dos volantes
do que as lanternas
e as latarias reluzentes.
Todos os olhos,
mesmo que atentos
e ocupados com o trânsito,
falavam sobre dramas de alcova
em voz monótona e franca.
Naqueles instantes,
tudo era tão comum
que, por uma volta completa sobre si,
a própria tarde
parecia uma história absurda.
Aquela luz
juntava cada um
a um fluxo orgânico de acontecimentos
e as horas
eram o avesso da aventura:
a vida servida como uma sopa morna,
requentada.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
minutos de frivolidade: LIV
O que busco
ora é moldura
ora é estilo;
às vezes é destino,
outras, danação;
umas vezes é busca mesmo,
outras, preguiça pura;
gesto ou trejeito;
Um lugar para encostar o espírito
como um casaco surrado
se pendura num cabide
tão íntimo, tão conhecido;
como se, junto com o chapéu,
eu pusesse a cabeça
entre outros guardados
e minhas costas desoneradas
pudessem sentir, pela primeira vez,
uma superfície macia
e eu, finalmente,
adormecesse.
sábado, 30 de julho de 2011
minutos de frivolidade: LIII
Entregues os pontos,
a lua vai eclipsar
os suplícios e os humores
com sua luz pálida
e extravagante.
Cada todo será parcela
e cada parte será
recordação.
Fim de linha,
fim das contas,
haveremos de lembrar
que as horas
são tema lunar
com seus jogos
de encobrir
e revelar.
Seu compasso
indiferente a nossas
humanidades
nos ensinou, contudo,
a contar o tempo
e a fiar o terço,
que desfiamos
em dores e gozos
e tecemos novamente
e inventamos
uma segunda natureza,
verbal e frágil,
segundo a qual
todo não passa de querer
e de querer não mais
que amar.
terça-feira, 5 de julho de 2011
minutos de frivolidade: LII
Suas mãos,
quentes e pequenas,
são um mistério do tempo,
e tocam minhas costas
com nossas adolescências
encobertas
mas reveladas
em nossos ritos
profanos, cotidianos.
De mãos dadas
e olhos fechados
brincamos de adivinhar
o que a vida
nos reserva
e o que preparamos
em retribuição.
Quando rimos juntos
e, de rir,
trocamos carinhos,
dizemos ao pé do ouvido
um segredo muito antigo:
a promessa
de que iremos
rejuvenescer.
A cada dia,
uma luta vencida
por nosso reino;
tantas vezes
reconquistado.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
minutos de frivolidade: LI
É a cidade,
(não aquela que vejo
da janela)
que diz
o gosto do café
que trago
sonolento
na minha caneca
costumeira.
domingo, 15 de maio de 2011
minutos de frivolidade: L
As mãos querem
reter o mundo,
mas a moldura
dos olhos
é muito estreita
e as ruas fervem
encantadas
pelo atrito no asfalto
e pelas paisagens
envitrinadas.
As mãos querem
reter o mundo,
mas mundo não há.
Há apenas
As mãos
carentes
do mundo.
terça-feira, 3 de maio de 2011
minutos de frivolidade: XLIX
Pela fresta do dia
escorrem os corpos
desamparados
e suas secreções.
Sucessões
de desenganos químicos
animam e articulam
rostos
ventres
tíbias agudas
retinas oblíquas
e seus
humores
intestinos.
Dobrando esquinas
e fazendo brisas,
é o tempo
que abre e fecha
os espaços,
como um fio invisível
que costura encontros
e solidões.
terça-feira, 26 de abril de 2011
minutos de frivolidade: XLVIII
Minha cidade
tem uma menina
que ri sem motivo
nos caminhos baldios
porque rir
é coisa sem carência
de razões.
Ela espalha
seus brinquedos
nas calçadas
e forma palavras
que cata das nuvens
com as pontas dos dedos.
Os cães
vêm cheirar
seus pés
e lamber
suas mãos.
Ela dá de comer
a eles:
bolo de vento
com chá de poeira.
Somadas as farras
da manhã
com as vespertinas,
a menina
que habita os caminhos
da minha cidade
abre sua caixinha de relíquias
e guarda as memórias
diluídas
na aguarrás do esquecimento
junto daquela
moeda antiga
e do anel
que tirou do dedo
da rainha da Suécia.
As mulheres e os homens,
cansados do dia
e de suas
políticas de cimenteiro,
vão dormir
no canto da sua boca.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
minutos de frivolidade: XLVII
O mar,
para os olhos,
é infinito
e palpável.
Para os corpos,
o contato remoto
no mergulho:
Os horizontes
que avistamos
dos lençóis
que recobrem
nossa cama
domingo, 3 de abril de 2011
minutos de frivolidade: XLVI
Não é que a gente
ache feio
isso dos meninos
tomarem banho
de chafariz.
É que a gente tem
inveja
deles.
domingo, 27 de março de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
minutos de frivolidade: XLIV
Na madrugada,
quando a abóbada
celeste e obscura
toca de silêncios
a ponta do meu nariz,
dá para quase escutar
as respirações frouxas
que medem os espaços.
Seu braço quente,
que pousa, repentino,
no meu peito,
é um continente
de existências.
As costas desertas, nuas.
O rosto peninsular
guarda as noites
dos faróis
e dos castelos
com paredes habitadas
por meus segredos
e desejos.
Fecho os olhos
e respiro os hálitos
que movem
minha carne
e meus ossos
desarticulados.
Os mesmos vapores
que sorvo do seu beijo.
O vento anima,
então,
o tempo e as folhas.
Somos nós.
Sou eu.
Você é.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
minutos de frivolidade: XLIII
domingo, 12 de dezembro de 2010
minutos de frivolidade: XLII
sábado, 27 de novembro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
minutos de frivolidade: XL
Ressequido. Opaco.
Fosco. Morto
como madeira morta.
Os braços cruzados
sobre o peito.
Laços
do fardo. Do resto.
Áridas estrias
ligavam o pescoço
às orelhas pálidas,
baldias.
Da boca aberta, arreganhada,
eu via os dentes
que respondiam,
em pretérito imperfeito,
pelas manchas de fumo
preservadas.
Tuas narinas me espreitavam
sobre os ombros.
E só as frontes
Vistas de soslaio
Mantinham algum viço.
Meus olhos meio cegos
buscavam, pai, algum indício teu
naqueles escombros.
Nada.
Só o tempo corria
debaixo de meus pés
adormecidos.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
minutos de frivolidade: XXXIX
de mim
em alguma soleira
do esquecimento.
Carreguei o verbo
soterrado de sentidos
- da cabeça
até a mão –
quase sem forças
para erguer as tintas
do abandono.
Deixo aqui
nesse balaio
essa parte
que já é outrem
para que seja
morta e comida.
Para que comam a carne
e chupem os ossos
e sobrem apenas
o cheiro da véspera
e a gordura
no canto da boca
como testemunho.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
minutos de frivolidade: XXXVIII
quarta-feira, 14 de julho de 2010
minutos de frivolidade: XXXVII
terça-feira, 29 de junho de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
minutos de frivolidade: XXXIV
domingo, 28 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
sete poemas para um pássaro morto: VI
sexta-feira, 19 de março de 2010
sete poemas para um pássaro morto: V
segunda-feira, 15 de março de 2010
sete poemas para um pássaro morto: IV
domingo, 14 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
sete poemas para um pássaro morto: II
sábado, 6 de março de 2010
sete poemas para um pássaro morto: I
sábado, 27 de fevereiro de 2010
minutos de frivolidade: XXXIII
sábado, 20 de fevereiro de 2010
minutos de frivolidade: XXXII
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
minutos de frivolidade: XXX
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
outras aventuras: beija-flor
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
minutos de frivolidade: XXIX
sábado, 2 de janeiro de 2010
outras aventuras: mar e vento
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
outras aventuras: hexacampeonato
Há memórias que repousam na soleira que conecta o consciente e o subconsciente. Eu me lembro da minha festa de três anos, na casa dos meus padrinhos em Inhaúma, vestido com o macacão preto da Lottus que o Senna pilotava e que a minha mãe havia costurado pra mim.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
minutos de frivolidade: XXVIII
sábado, 31 de outubro de 2009
minutos de frivolidade: XXVI
Preciso, talvez, de
alguém que me conte
sobre verdes campos.
A morada das almas.
Onde tenha um adro
de pedras gastas
todo perfumado daquele
cheiro bom que escorre
das telhas em dia de chuva.
Que seja o reino
da verdade, por ser
o que possa haver
de mais idêntico ao sonho.
Uma frase, o sopro
perene do esquecimento:
tudo infância e repouso,
mesmo correr de pés descalços.
Porque só há como
suportar o cansaço
dos olhos e das mãos,
dando forma ao impossível.
Por isso dormem as crianças
Por isso despertam os adultos.
Por isso eu tenho sono.
Ouvi um homem dizer
que diante do amor
e da morte, nada
pode ser dito.
Por isso eu me calo.