segunda-feira, 13 de julho de 2015

sem título 1

Passamos.
Entreolhando coisas.
A infelicidade
Dos que têm olhos de rapina
Pregados
Na frente da cara.

Nem os cegos
Talvez
Tenham o privilégio
De algo mais
Do que uma superfície
Sem cor.

Esse pano oco.
Menos que pano.
Menos que tronco.
Não é mais
Do que o discreto relevo
De um monturo de nomes:

"Rosto" "torre"
"Dia" "vulto" "parede"
"Escada" "cancela"
"Memória"

Balbuciamos
Diante do abismo sem eco.
Um furo que é também
A precipitação
De tudo
Em nada.

Houve um tempo em que pensei
Que não havia maior desgraça
Do que jamais ouvir
As lindas canções que ouvi.
Mas há quem não tenha o sabor de sequer uma nota
E tenha os olhos mais vivos que os meus.

Talvez fosse melhor
Desmontar esse edifício
Que nunca houve.
Deixá-lo desmoronar
Sem nunca ter sido erguido.
Tombar leve, discreto.

Mas não há jogo melhor
E mais antigo
Do que traçar
Essa curva invisível.
Abrir e fechar os olhos.
Fechar e abrir a boca.

domingo, 23 de março de 2014

lacuna

Verdade.
Capacidade de ver.
Prescinde de olhos
verdes obstinados.
Enfiar as mãos
bem fundo
bem forte
na fresta do mundo.
Palmilhei no escuro
em busca de um vazio
para apoiar minha omoplata.
Como um peixe
fisgado pela língua
sacudi a cauda
estrebuchei
por um pouco de água
que me lavasse a fronte
e me afogasse os pulmões.
Fiz orações
para um deus doméstico
que se esconde
atrás dos móveis
e entre as páginas dos livros
que nunca tirei da estante.
Um deus criança
um deus paisagem
um deus aroma
que me abrisse os olhos.
Mas eles permanecem cerrados
e só o coração
cão sem faro
tem alguma serventia.
Há um grão de areia fina
que me arranha o peito
sem que da ferida
resulte pérola ou hematoma.
Um corte mudo
que não sangra
não dói
nem cicatriza.
Assim é a lacuna
que se impõe.
Por isso
minhas mãos vacilam
angustiadas
espalmadas
a procura de outras mãos
de um oceano
que trasborde tudo
que engula tudo
que seja tudo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

a primeira missa

Minha cama
dista
cerca
de oito quilômetros
do pé
de comigo-ninguém-pode
que adorna
um canteiro
na Cidade Nova
de frente para
uns palmos de calçada
que me afrontam

Ali
uma palavra
à mão armada
matou uma ideia:
roubo seguido de morte

Ali
e eu poria
exércitos de poeira
em marcha
pela conquista
das guimbas de cigarro
símbolo da nossa bandeira

Dizimaria multidões
de micróbios
escravizaria formigas
sepultaria remorsos
reinaria entre poças
de urina e rancor

Talvez seja aquele
meu torrão natal
e eu devesse
mandar rezar
a primeira missa
aos pés
daquele pé
de planta



terça-feira, 6 de agosto de 2013

coisas

giros lunares
estações
espaços

translações extraviadas
rotações atrás do próprio rabo
o sereno das noites
o charme das manhãs

os passantes tropeçam
em mistérios
esquecidos nas calçadas

as mulheres choram
os homens choram
as crianças
(ai, não deviam)
choram

nem tudo é desassossego
há algum desespero
e alguma paciência também

se sonhos
de sonhos
não passam

talvez
não seja tudo a mesma
ciosa
coisa



segunda-feira, 29 de julho de 2013

as horas

Não é o rosto
cambiante
esmaecido
no espelho
que angustia,
mas o tormento
das horas medidas.

A última meia-hora
dói mais
que o apodrecimento
de centenas de coisas vivas,
na última meia-hora.

Algumas dúzias
de fios de cabelo
caem,
o carro bate,
o gato escorrega
do parapeito
e agora só tem
quatro das sete vidas,
o sangue escorre
de muitas feridas,
muitos corpos
não suportam
a última gota,
muitos outros
se afogam
em fossas
e festas,
notas soam
dissonam
harmonizam,
muito gozo,
muito choro,
muito riso,
muito sono,
muito sonho.

Não doem mais
que a lâmina sutil
que fere sem sangrar
que mata sem ferir.



sábado, 20 de julho de 2013

carta ao pai

Já faz algum tempo
Que todos os homens grisalhos
Deram de desfilar teu rosto
Pelas esquinas

Em cada carro veloz
Em cada ponto de ônibus
Em cada sinal fechado
Vejo-te e somes ligeiro

Chego a olhar mais longamente
Ensaio um aceno, mas desisto,
Olho novamente e te sigo
E quando alcanço és outro

Somente na memória é que duras
E dura meu tempo de menino
Em que eu vigiava cada detalhe
Para me tornar igual a ti

Não sei qual trapaça do entendimento
Qual astúcia da razão ou da lembrança
Moveu o tempo em surdina
E fez de tua ausência, esta onipresença fantasmal

Povoas minha sombra
Meu jeito de sentar e de sorrir
E mesmo este rosto que vacila diante do espelho
É o avesso de tua assombração.


quinta-feira, 11 de julho de 2013

um poema ao poema sujo

Da primeira vez
que li
o Poema Sujo
– eu li de pé
numa livraria
no centro da cidade
em hora de almoço
em que eu tinha
um fastio enorme,
eu tinha um medo enorme
da vida que eu tinha
que viver –,
eu fiquei contente
com a vertigem
que descontenta,
porque era a vertigem
das coisas mesmas,
afrontadas
constrangidas
envenenadas
pela memória;
não era aquela
fabricada
no labirinto pedante
de notas de rodapé.

Eu traía o autor
porque o Poema Sujo
purificava
limpava
lavava
a alma
que eu estendia
no varal
para refrescar o ar
com os lençóis
brancos
que ventavam
em Buenos Aires
ou na Lisboa
futura
de céu azul
puríssimo.

Eu voltava ao trabalho
num Boeing
sobre o Atlântico
com um naco
do Maranhão
no bolso.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

aniversário

Daqui a três dias, eu faço aniversário.
Vinte e quatro anos.

Sobrevivi à luta entre as bactérias e os meios hostis
Rolei entre garras sujas de carne fresca
A seta entre os olhos e a presa
O grito bestial e o silêncio da digestão
A agonia dos sexos se esmagando
A dor e o esquecimento
O prazer sem dia seguinte
As sementes rompendo lentamente a face suave da romã tardia
As mangas apodrecendo nos fundos baldios da casa abandonada
O abandono dos corpos ao sono
As palavras que não foram ditas
O amor fugaz entre a vela e o vento
O porão do navio negreiro
A fome noturna e o pátio da fábrica
O espetáculo ruidoso dos ônibus lotados rumo ao centro da cidade
A dissolução da multidão nervosa
A forja diária do real pela notícia
(Cada manchete
uma martelada no aço quente do cotidiano
sobre a bigorna fria do cansaço).

Vinte e quatro anos.

Acordei exausto
Em algum lugar da minha infância
Com a barriga cicatrizada
Onde haviam cortado e enterrado um segredo
Do qual a única pista que tenho
É o tempo e seus sintomas,
Cuidadosamente mensurados:


Vinte e quatro anos.

sábado, 18 de maio de 2013

a cidade


As mulheres
e os homens
do meu tempo
– pobres
de nós –
nasceram possuídos
pela cidade.

Seus olhos se abrem
em esquinas,
suas mãos
buscam
a poeira nas portas
das casas.

Bebemos a multidão
em goles ligeiros
de café
amargo
doce
requentado.

Choramingamos
nas trevas
que escorrem
para baixo
da cama.

É a cidade
que me sacode
ao pé da cama,
com seus rumores
e ventanias,
e me acorda
pela hora da morte
pelos olhos da cara.

domingo, 28 de abril de 2013

vícios


No tempo de antes
das mulheres
e dos homens
separarem
corpo
e alma,
não estava despercebido
o espírito.
Impossível não saber
do espírito.
O corpo – é mais provável –
que se diluía em brumas
de sonho,
de invenção.

É estranho agora
eu ter o braço
e as costas doloridas
porque essa massa
pouco articulada,
constrangida por vapores
e líquidos conturbados,
virou tema
de consultório médico,
anotado em bulas
e receituários,
uma cela, quase,
não de prisão,
mas de mosteiro.

Se eu pego
o sujeito
que ousou pensar
uma Ideia pura
uma Ideia-ideia,
enveneno seus vícios de penseiro
com a ausência
dos cheiros e dos carinhos
das mulheres
e dos homens
mais belos,
mais fogosos,
mais carentes de razão,
enfio-lhe
por entre as pernas
sua sina de andar
com os pés no chão.

terça-feira, 16 de abril de 2013

vertigens


Abscônditos recantos
labirintos abissais
obscuro absinto

abnego
ab-rogo
ab-reajo
aberto em fatias finas
desfolhado em folias findas

desmancho em indícios
diluo em sentidos
desfiguro
giro
como
e adormeço.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

começos


Minha oficina corriqueira
nem minha é.
Pertence a alguém
que caminha
do outro lado da rua
e a possui sem saber.

Eu ergo suas portas
– nem pesadas, nem leves,
mas estridentes, marcadas
por muitas outras mãos –
e a habito de invenções
que descubro, esquecidas.

Encontro objetos
de antes do tempo
em que ação e discurso
tivessem sido extraviados
mutuamente, fatalmente,
lamentavelmente.

Feitura de homo faber,
fabricação de sentido.
É mais que oferenda
esse trabalho em que insisto;
é promessa, obrigação,
dever de começar.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

tarde de maio


Tarde de maio, última,
que peca,
que tira o pecado,
borboleta transparente
que voa entre os carros
estacionados,
a cidade se enrosca
em teu colo de azul puríssimo.

Tarde de maio, última,
recortada
de horizontes estreitos,
fresca de luzes brandas,
turba de agonias
esquecíveis,
a cidade enche os pulmões
com teu ar levíssimo.

Tarde de maio, última,
discreta,
que traz as pálpebras
cansadas, a meio-pau,
bandeira de um império
submarino,
a luta nos campos
se abranda com teus cheiros.

Tarde de maio, última,
Adormeço contigo,
contigo anoiteço.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

os balcões


Não há, em definitivo,
Razão aparente para que essas coisas sejam ditas

Nesta hora,
Diante de todas essas coisas em movimento,

Nesta mesa,
De frente para o copo de suco de laranja.

Mas neste exato momento,
Por incrível que pareça,

Os balcões dos bares
Acumulam manchas dos fundos gelados dos copos

E torrentes de agonias
Estão debruçadas sobre os cotovelos

Que articulam a alavanca
Para que ocorra o próximo gole urgente.

Tantas são as solidões
Que se precipitam na algazarra:

Acordam mortas todo dia
E todo dia dormem em delírio.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

entre panelas


A língua servida,
marinada de véspera.
Posta caseira
em aromas da terra.

Invenção discreta
de um Exu tímido.
Falo da fala,
talo de planta. Folha.

Silêncio de tempestade,
voz que cala no nervo,
fervo de quietudes,
ausência do meu irmão.

Muda, broto mudo,
botão aberto,
sentença incerta,
quase canção.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

marrom e cinza

[Caros leitores, retomo, hoje, o blog com uma nova série de poemas que chamo de "Às margens plácidas"]


Nasci e me criei
Na beirada do cais do porto
Bem perto do turbilhão de cores do carnaval.
Mas as minhas lembranças de infância
São todas em marrom e cinza.
São todas da cal pálida
Das fachadas da igrejinha
E dos sobrados antigos.

O mar mesmo eu vi poucas vezes.
Uma linha quase negra
Que se debruçava por sobre os telhados
Dos prédios ao longo do cais
Como a água equilibrista
Em copo cheio até a borda.

Marrom o chão de tábuas corridas
Marrom nos cabelos cacheados das minhas tias
Marrom o quebra-pedra
Crescendo entre o cinza dos paralelepípedos
Marrom nos bancos da igreja
E na carne do Cristo em tamanho natural
Que todo domingo
Eu ia ver se havia fugido da cruz
Cinza nas calçadas em fim de tarde
Cinza na parede de contar o pique-esconde
Cinza a escadaria ao longo do muro alto
Caiado de cima a baixo.

Vermelho mesmo eu lembro muito pouco.
Só nas roupas dos exus fajutos
Da vizinha macumbeira
E nos sete belos do carteado
Que ela promovia à noite
De frente para o gongá.
Um pouquinho de verde
Nos olhos do meu pai
E um amarelo vivo nos do nosso gato preto.
Um dourado dos dedos e dos pulsos de minha mãe
Cobertos de bijuterias.

Meus primeiros versos
Têm sobrevivido bem
À primeira década de convívio com outros papéis
Guardados no canto do armário.
Estes versos aqui
– Retirantes da memória –
Sobreviveram nas cores pálidas
De outros muitos anos de esquecimento.

sábado, 12 de novembro de 2011

minutos de frivolidade: LX




[Prezados leitores: com este, encerro os Minutos de Frivolidade. Tenho escrito outras coisas que seguirei compartilhando por aqui.]



O minuto restante
é metade memória
e metade anunciação.
É um pingente,
uma conta do Rosário
que adorna o colo
de uma deusa
expulsa do Olimpo.

Um signo
de nenhum zodíaco.

sábado, 5 de novembro de 2011

minutos de frivolidade: LIX






Meu canto decaído,
estropiado, danado,
não é rouco
é tímido, somente.

E disfarça sua angústia
com modéstia.
E se acanha
porque só alcança
as coisas baixas.

Mas é fatal, inevitável.
Não morro se não canto,
emudeço, apenas.
Mas me perco,
que é pior que estar arruinado.

Eu não rezo.
Dou bom dia.
Não falo para os céus,
como os sinos terríveis
e estridentes.

O que sai da minha boca
é para o pé do ouvido,
é para um sorriso,
é só um pouco mais
que silêncio.

sábado, 29 de outubro de 2011

minutos de frivolidade: LVIII






                                                         Para a filha ou filho de Mira e Nico

1.
No ônibus,
A pequenina dormia frouxa
No colo de sua mãe
Que tinha uma fisionomia cansada
E os olhos preocupados.
A mãe pegou a mão da miúda,
Beijou e cheirou com força
Como quem toma um fôlego fundo.

2.
Minha mãe
Se debruçou sobre os meus ombros
De homem feito
E me abraçou apertado.
O gesto era a soma de todos os cuidados acumulados
No labor interminável
De me alimentar.

3.
Dona Sandra
Se emaranhava nos cabelos de Isis
E tudo fazia sentido.
Naquele labirinto de fios negros,
Era difícil entrever a cicatriz
Que confundia seus sorrisos.

4.
Érica Pedroza
Assumiu prematuramente
A tarefa de ensinar Kelly a cuidar de seus cadernos.
Seu caderno, hoje, é absolutamente impecável
E as duas falam uma língua
Que inventaram
E que só elas entendem.

5.
Marcio Rosa
Deixou a profissão para cuidar de Tiago e Fafá
E se tornou mestre inigualável
No ofício de poeta.
Compõe pequenas pistas de poesia
Nas frestas do cotidiano
E nos álbuns de fotografias.

A história do mundo
É mesmo a história
Dessa gente maluca
Que vive perigosamente
Que faz do amor a causa urgente.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

minutos de frivolidade: LVII





Eu invento uma frase
que carrego como um patuá
contra o mau olhado e a boca daninha.

E toda manhã a recito
e toda manhã a esqueço.

Eu carrego uma frase
que reduza a opacidade,
mas ela não ilumina.

Eu a escondo do mundo
Para que ele não a decifre.

O mundo permanece
essa máquina óbvia
de entranhas transparentes.

Eu teimo com meus feitiços,
meus encantamentos de bolso.

domingo, 21 de agosto de 2011

minutos de frivolidade: LVI




O que eu trago
entre as mãos,
– não tenha medo –
não é belo
nem feio
não é velho
nem novo
não é segredo
nem enigma
não é critério
nem questão
não é memória
nem esquecimento.
É só um mistério,
um brinquedo.
É um fragmento,
um pedaço do tempo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

minutos de frivolidade: LV




Na rua Salvador de Sá,
em frente à Escola do Estácio de Sá,
na tarde madura,
a luz vespertina
revelava mais os rostos
atrás dos volantes
do que as lanternas
e as latarias reluzentes.

Todos os olhos,
mesmo que atentos
e ocupados com o trânsito,
falavam sobre dramas de alcova
em voz monótona e franca.
Naqueles instantes,
tudo era tão comum
que, por uma volta completa sobre si,
a própria tarde
parecia uma história absurda.

Aquela luz
juntava cada um
a um fluxo orgânico de acontecimentos
e as horas
eram o avesso da aventura:
a vida servida como uma sopa morna,
requentada.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

minutos de frivolidade: LIV



O que busco
ora é moldura
ora é estilo;
às vezes é destino,
outras, danação;
umas vezes é busca mesmo,
outras, preguiça pura;
gesto ou trejeito;

Um lugar para encostar o espírito
como um casaco surrado
se pendura num cabide
tão íntimo, tão conhecido;
como se, junto com o chapéu,
eu pusesse a cabeça
entre outros guardados
e minhas costas desoneradas
pudessem sentir, pela primeira vez,
uma superfície macia
e eu, finalmente,
adormecesse.


sábado, 30 de julho de 2011

minutos de frivolidade: LIII





Entregues os pontos,
a lua vai eclipsar
os suplícios e os humores
com sua luz pálida
e extravagante.
Cada todo será parcela
e cada parte será
recordação.

Fim de linha,
fim das contas,
haveremos de lembrar
que as horas
são tema lunar
com seus jogos
de encobrir
e revelar.

Seu compasso
indiferente a nossas
humanidades
nos ensinou, contudo,
a contar o tempo
e a fiar o terço,
que desfiamos
em dores e gozos
e tecemos novamente
e inventamos
uma segunda natureza,
verbal e frágil,
segundo a qual
todo não passa de querer
e de querer não mais
que amar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

minutos de frivolidade: LII




Suas mãos,
quentes e pequenas,
são um mistério do tempo,
e tocam minhas costas
com nossas adolescências
encobertas
mas reveladas
em nossos ritos
profanos, cotidianos.

De mãos dadas
e olhos fechados
brincamos de adivinhar
o que a vida
nos reserva
e o que preparamos
em retribuição.

Quando rimos juntos
e, de rir,
trocamos carinhos,
dizemos ao pé do ouvido
um segredo muito antigo:
a promessa
de que iremos
rejuvenescer.

A cada dia,
uma luta vencida
por nosso reino;
tantas vezes
reconquistado.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

minutos de frivolidade: LI




É a cidade,
(não aquela que vejo
da janela)
que diz
o gosto do café
que trago
sonolento
na minha caneca
costumeira.

domingo, 15 de maio de 2011

minutos de frivolidade: L




As mãos querem
reter o mundo,
mas a moldura
dos olhos
é muito estreita
e as ruas fervem
encantadas
pelo atrito no asfalto
e pelas paisagens
envitrinadas.

As mãos querem
reter o mundo,
mas mundo não há.

Há apenas
As mãos
carentes
do mundo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

minutos de frivolidade: XLIX




Pela fresta do dia
escorrem os corpos
desamparados
e suas secreções.

Sucessões
de desenganos químicos
animam e articulam
rostos
ventres
tíbias agudas
retinas oblíquas
e seus
humores
intestinos.

Dobrando esquinas
e fazendo brisas,
é o tempo
que abre e fecha
os espaços,
como um fio invisível
que costura encontros
e solidões.

terça-feira, 26 de abril de 2011

minutos de frivolidade: XLVIII






Minha cidade
tem uma menina
que ri sem motivo
nos caminhos baldios
porque rir
é coisa sem carência
de razões.

Ela espalha
seus brinquedos
nas calçadas
e forma palavras
que cata das nuvens
com as pontas dos dedos.

Os cães
vêm cheirar
seus pés
e lamber
suas mãos.

Ela dá de comer
a eles:
bolo de vento
com chá de poeira.

Somadas as farras
da manhã
com as vespertinas,
a menina
que habita os caminhos
da minha cidade
abre sua caixinha de relíquias
e guarda as memórias
diluídas
na aguarrás do esquecimento
junto daquela
moeda antiga
e do anel
que tirou do dedo
da rainha da Suécia.

As mulheres e os homens,
cansados do dia
e de suas
políticas de cimenteiro,
vão dormir
no canto da sua boca.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

minutos de frivolidade: XLVII






O mar,
para os olhos,
é infinito
e palpável.
Para os corpos,
o contato remoto
no mergulho:

Os horizontes
que avistamos
dos lençóis
que recobrem
nossa cama

domingo, 3 de abril de 2011

minutos de frivolidade: XLVI






Não é que a gente
ache feio
isso dos meninos
tomarem banho
de chafariz.

É que a gente tem
inveja
deles.

domingo, 27 de março de 2011

minutos de frivolidade: XLV



Sonhei
que voava
que nem santo
voava e voava e voava
até o fundo
de uma página
em branco.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

minutos de frivolidade: XLIV



Na madrugada,
quando a abóbada
celeste e obscura
toca de silêncios
a ponta do meu nariz,
dá para quase escutar
as respirações frouxas
que medem os espaços.

Seu braço quente,
que pousa, repentino,
no meu peito,
é um continente
de existências.

As costas desertas, nuas.
O rosto peninsular
guarda as noites
dos faróis
e dos castelos
com paredes habitadas
por meus segredos
e desejos.
Fecho os olhos
e respiro os hálitos
que movem
minha carne
e meus ossos
desarticulados.
Os mesmos vapores
que sorvo do seu beijo.

O vento anima,
então,
o tempo e as folhas.

Somos nós.
Sou eu.
Você é.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

minutos de frivolidade: XLIII





As mulheres e os homens
dão de gostar
dos rios
porque um rio
é a raiz
enésima
de n acasos
acumulados.

O leito, o som, o cheiro
são apenas
os sintomas
da enxurrada
de acidentes –
andrajos de fenômeno,
parangolés em monumento.

É de araque
Todo rio.

domingo, 12 de dezembro de 2010

minutos de frivolidade: XLII





o rosto com que fita
é a Bahia
a boca com que grita
é a baía
o zodíaco habita
(continente)
a última bainha
do Ocidente

sábado, 27 de novembro de 2010

minutos de frivolidade: XLI




foi mesmo o dia
ou uma espiral
de fumaça
entornando as horas
diante dos meus olhos?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

minutos de frivolidade: XL


Ressequido. Opaco.
Fosco. Morto
como madeira morta.
Os braços cruzados
sobre o peito.
Laços
do fardo. Do resto.
Áridas estrias
ligavam o pescoço
às orelhas pálidas,
baldias.
Da boca aberta, arreganhada,
eu via os dentes
que respondiam,
em pretérito imperfeito,
pelas manchas de fumo
preservadas.
Tuas narinas me espreitavam
sobre os ombros.
E só as frontes
Vistas de soslaio
Mantinham algum viço.

Meus olhos meio cegos
buscavam, pai, algum indício teu
naqueles escombros.

Nada.

Só o tempo corria
debaixo de meus pés
adormecidos.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

minutos de frivolidade: XXXIX




Deixei um pedaço
de mim
em alguma soleira
do esquecimento.

Carreguei o verbo
soterrado de sentidos
- da cabeça
até a mão –
quase sem forças
para erguer as tintas
do abandono.

Deixo aqui
nesse balaio
essa parte
que já é outrem
para que seja
morta e comida.

Para que comam a carne
e chupem os ossos
e sobrem apenas
o cheiro da véspera
e a gordura
no canto da boca
como testemunho.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

minutos de frivolidade: XXXVIII




Um passarinho
comendo a canjiquinha
posta em círculo
no quintal.

O tempo estalando
no bico,
grão por grão.

Eu reparando
no ciscar das horas
e na injustiça
de meus desenhos
de canto de página:

quantos detalhes
em branco e cinza
e vento e nuvem
e preto e pardo
na cabeça de um pardal.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

minutos de frivolidade: XXXVII




Noves fora,
fora Narciso
resta
o gesto
a última gesta
o final da festa:
só o simples é preciso
no fazer.

terça-feira, 29 de junho de 2010

minutos de frivolidade: XXXVI





Mais que no feito
é o que dói
no dito:
o que imprime
o fonema
na ponta da língua.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

minutos de frivolidade: XXXV



Palavras, o vento
leva:
foi-se
o tempo.