sábado, 12 de novembro de 2011

minutos de frivolidade: LX




[Prezados leitores: com este, encerro os Minutos de Frivolidade. Tenho escrito outras coisas que seguirei compartilhando por aqui.]



O minuto restante
é metade memória
e metade anunciação.
É um pingente,
uma conta do Rosário
que adorna o colo
de uma deusa
expulsa do Olimpo.

Um signo
de nenhum zodíaco.

sábado, 5 de novembro de 2011

minutos de frivolidade: LIX






Meu canto decaído,
estropiado, danado,
não é rouco
é tímido, somente.

E disfarça sua angústia
com modéstia.
E se acanha
porque só alcança
as coisas baixas.

Mas é fatal, inevitável.
Não morro se não canto,
emudeço, apenas.
Mas me perco,
que é pior que estar arruinado.

Eu não rezo.
Dou bom dia.
Não falo para os céus,
como os sinos terríveis
e estridentes.

O que sai da minha boca
é para o pé do ouvido,
é para um sorriso,
é só um pouco mais
que silêncio.

sábado, 29 de outubro de 2011

minutos de frivolidade: LVIII






                                                         Para a filha ou filho de Mira e Nico

1.
No ônibus,
A pequenina dormia frouxa
No colo de sua mãe
Que tinha uma fisionomia cansada
E os olhos preocupados.
A mãe pegou a mão da miúda,
Beijou e cheirou com força
Como quem toma um fôlego fundo.

2.
Minha mãe
Se debruçou sobre os meus ombros
De homem feito
E me abraçou apertado.
O gesto era a soma de todos os cuidados acumulados
No labor interminável
De me alimentar.

3.
Dona Sandra
Se emaranhava nos cabelos de Isis
E tudo fazia sentido.
Naquele labirinto de fios negros,
Era difícil entrever a cicatriz
Que confundia seus sorrisos.

4.
Érica Pedroza
Assumiu prematuramente
A tarefa de ensinar Kelly a cuidar de seus cadernos.
Seu caderno, hoje, é absolutamente impecável
E as duas falam uma língua
Que inventaram
E que só elas entendem.

5.
Marcio Rosa
Deixou a profissão para cuidar de Tiago e Fafá
E se tornou mestre inigualável
No ofício de poeta.
Compõe pequenas pistas de poesia
Nas frestas do cotidiano
E nos álbuns de fotografias.

A história do mundo
É mesmo a história
Dessa gente maluca
Que vive perigosamente
Que faz do amor a causa urgente.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

minutos de frivolidade: LVII





Eu invento uma frase
que carrego como um patuá
contra o mau olhado e a boca daninha.

E toda manhã a recito
e toda manhã a esqueço.

Eu carrego uma frase
que reduza a opacidade,
mas ela não ilumina.

Eu a escondo do mundo
Para que ele não a decifre.

O mundo permanece
essa máquina óbvia
de entranhas transparentes.

Eu teimo com meus feitiços,
meus encantamentos de bolso.

domingo, 21 de agosto de 2011

minutos de frivolidade: LVI




O que eu trago
entre as mãos,
– não tenha medo –
não é belo
nem feio
não é velho
nem novo
não é segredo
nem enigma
não é critério
nem questão
não é memória
nem esquecimento.
É só um mistério,
um brinquedo.
É um fragmento,
um pedaço do tempo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

minutos de frivolidade: LV




Na rua Salvador de Sá,
em frente à Escola do Estácio de Sá,
na tarde madura,
a luz vespertina
revelava mais os rostos
atrás dos volantes
do que as lanternas
e as latarias reluzentes.

Todos os olhos,
mesmo que atentos
e ocupados com o trânsito,
falavam sobre dramas de alcova
em voz monótona e franca.
Naqueles instantes,
tudo era tão comum
que, por uma volta completa sobre si,
a própria tarde
parecia uma história absurda.

Aquela luz
juntava cada um
a um fluxo orgânico de acontecimentos
e as horas
eram o avesso da aventura:
a vida servida como uma sopa morna,
requentada.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

minutos de frivolidade: LIV



O que busco
ora é moldura
ora é estilo;
às vezes é destino,
outras, danação;
umas vezes é busca mesmo,
outras, preguiça pura;
gesto ou trejeito;

Um lugar para encostar o espírito
como um casaco surrado
se pendura num cabide
tão íntimo, tão conhecido;
como se, junto com o chapéu,
eu pusesse a cabeça
entre outros guardados
e minhas costas desoneradas
pudessem sentir, pela primeira vez,
uma superfície macia
e eu, finalmente,
adormecesse.


sábado, 30 de julho de 2011

minutos de frivolidade: LIII





Entregues os pontos,
a lua vai eclipsar
os suplícios e os humores
com sua luz pálida
e extravagante.
Cada todo será parcela
e cada parte será
recordação.

Fim de linha,
fim das contas,
haveremos de lembrar
que as horas
são tema lunar
com seus jogos
de encobrir
e revelar.

Seu compasso
indiferente a nossas
humanidades
nos ensinou, contudo,
a contar o tempo
e a fiar o terço,
que desfiamos
em dores e gozos
e tecemos novamente
e inventamos
uma segunda natureza,
verbal e frágil,
segundo a qual
todo não passa de querer
e de querer não mais
que amar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

minutos de frivolidade: LII




Suas mãos,
quentes e pequenas,
são um mistério do tempo,
e tocam minhas costas
com nossas adolescências
encobertas
mas reveladas
em nossos ritos
profanos, cotidianos.

De mãos dadas
e olhos fechados
brincamos de adivinhar
o que a vida
nos reserva
e o que preparamos
em retribuição.

Quando rimos juntos
e, de rir,
trocamos carinhos,
dizemos ao pé do ouvido
um segredo muito antigo:
a promessa
de que iremos
rejuvenescer.

A cada dia,
uma luta vencida
por nosso reino;
tantas vezes
reconquistado.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

minutos de frivolidade: LI




É a cidade,
(não aquela que vejo
da janela)
que diz
o gosto do café
que trago
sonolento
na minha caneca
costumeira.

domingo, 15 de maio de 2011

minutos de frivolidade: L




As mãos querem
reter o mundo,
mas a moldura
dos olhos
é muito estreita
e as ruas fervem
encantadas
pelo atrito no asfalto
e pelas paisagens
envitrinadas.

As mãos querem
reter o mundo,
mas mundo não há.

Há apenas
As mãos
carentes
do mundo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

minutos de frivolidade: XLIX




Pela fresta do dia
escorrem os corpos
desamparados
e suas secreções.

Sucessões
de desenganos químicos
animam e articulam
rostos
ventres
tíbias agudas
retinas oblíquas
e seus
humores
intestinos.

Dobrando esquinas
e fazendo brisas,
é o tempo
que abre e fecha
os espaços,
como um fio invisível
que costura encontros
e solidões.

terça-feira, 26 de abril de 2011

minutos de frivolidade: XLVIII






Minha cidade
tem uma menina
que ri sem motivo
nos caminhos baldios
porque rir
é coisa sem carência
de razões.

Ela espalha
seus brinquedos
nas calçadas
e forma palavras
que cata das nuvens
com as pontas dos dedos.

Os cães
vêm cheirar
seus pés
e lamber
suas mãos.

Ela dá de comer
a eles:
bolo de vento
com chá de poeira.

Somadas as farras
da manhã
com as vespertinas,
a menina
que habita os caminhos
da minha cidade
abre sua caixinha de relíquias
e guarda as memórias
diluídas
na aguarrás do esquecimento
junto daquela
moeda antiga
e do anel
que tirou do dedo
da rainha da Suécia.

As mulheres e os homens,
cansados do dia
e de suas
políticas de cimenteiro,
vão dormir
no canto da sua boca.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

minutos de frivolidade: XLVII






O mar,
para os olhos,
é infinito
e palpável.
Para os corpos,
o contato remoto
no mergulho:

Os horizontes
que avistamos
dos lençóis
que recobrem
nossa cama

domingo, 3 de abril de 2011

minutos de frivolidade: XLVI






Não é que a gente
ache feio
isso dos meninos
tomarem banho
de chafariz.

É que a gente tem
inveja
deles.

domingo, 27 de março de 2011

minutos de frivolidade: XLV



Sonhei
que voava
que nem santo
voava e voava e voava
até o fundo
de uma página
em branco.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

minutos de frivolidade: XLIV



Na madrugada,
quando a abóbada
celeste e obscura
toca de silêncios
a ponta do meu nariz,
dá para quase escutar
as respirações frouxas
que medem os espaços.

Seu braço quente,
que pousa, repentino,
no meu peito,
é um continente
de existências.

As costas desertas, nuas.
O rosto peninsular
guarda as noites
dos faróis
e dos castelos
com paredes habitadas
por meus segredos
e desejos.
Fecho os olhos
e respiro os hálitos
que movem
minha carne
e meus ossos
desarticulados.
Os mesmos vapores
que sorvo do seu beijo.

O vento anima,
então,
o tempo e as folhas.

Somos nós.
Sou eu.
Você é.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

minutos de frivolidade: XLIII





As mulheres e os homens
dão de gostar
dos rios
porque um rio
é a raiz
enésima
de n acasos
acumulados.

O leito, o som, o cheiro
são apenas
os sintomas
da enxurrada
de acidentes –
andrajos de fenômeno,
parangolés em monumento.

É de araque
Todo rio.

domingo, 12 de dezembro de 2010

minutos de frivolidade: XLII





o rosto com que fita
é a Bahia
a boca com que grita
é a baía
o zodíaco habita
(continente)
a última bainha
do Ocidente

sábado, 27 de novembro de 2010

minutos de frivolidade: XLI




foi mesmo o dia
ou uma espiral
de fumaça
entornando as horas
diante dos meus olhos?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

minutos de frivolidade: XL


Ressequido. Opaco.
Fosco. Morto
como madeira morta.
Os braços cruzados
sobre o peito.
Laços
do fardo. Do resto.
Áridas estrias
ligavam o pescoço
às orelhas pálidas,
baldias.
Da boca aberta, arreganhada,
eu via os dentes
que respondiam,
em pretérito imperfeito,
pelas manchas de fumo
preservadas.
Tuas narinas me espreitavam
sobre os ombros.
E só as frontes
Vistas de soslaio
Mantinham algum viço.

Meus olhos meio cegos
buscavam, pai, algum indício teu
naqueles escombros.

Nada.

Só o tempo corria
debaixo de meus pés
adormecidos.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

minutos de frivolidade: XXXIX




Deixei um pedaço
de mim
em alguma soleira
do esquecimento.

Carreguei o verbo
soterrado de sentidos
- da cabeça
até a mão –
quase sem forças
para erguer as tintas
do abandono.

Deixo aqui
nesse balaio
essa parte
que já é outrem
para que seja
morta e comida.

Para que comam a carne
e chupem os ossos
e sobrem apenas
o cheiro da véspera
e a gordura
no canto da boca
como testemunho.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

minutos de frivolidade: XXXVIII




Um passarinho
comendo a canjiquinha
posta em círculo
no quintal.

O tempo estalando
no bico,
grão por grão.

Eu reparando
no ciscar das horas
e na injustiça
de meus desenhos
de canto de página:

quantos detalhes
em branco e cinza
e vento e nuvem
e preto e pardo
na cabeça de um pardal.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

minutos de frivolidade: XXXVII




Noves fora,
fora Narciso
resta
o gesto
a última gesta
o final da festa:
só o simples é preciso
no fazer.

terça-feira, 29 de junho de 2010

minutos de frivolidade: XXXVI





Mais que no feito
é o que dói
no dito:
o que imprime
o fonema
na ponta da língua.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

minutos de frivolidade: XXXV



Palavras, o vento
leva:
foi-se
o tempo.

domingo, 11 de abril de 2010

minutos de frivolidade: XXXIV




Desejo de vestir
tudo com todo;
que é mais
despir, revelar.
Arreganhar bordas,
abandonar a vontade
de medir;
que é mais fastio
que atividade.
Se o cansaço
dos séculos
cabe neste sarro
é questão superada,
virada do avesso,
chupada como laranja.

domingo, 28 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: VII




O que há de mais triste
no cadáver
de um pássaro
abatido
é o vôo
eternamente adiado.

segunda-feira, 22 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: VI



De quanta janela entreaberta,
quanta perna entrelaçada,
quanta lágrima
e quanto gozo,
não foste testemunha.
Tanto material
para gorjeio,
que ouvido
não havia
que desse conta
de escutar.
Tiveste o tempo
como tecido
e de auroras
fizeste muito enredo.
Teceste tanta trama
enquanto fingias
construir ninhos
tão altos
que olho
não havia
que desse conta
de ver.

sexta-feira, 19 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: V




Se te serve
de algum consolo,
alguns poetas
sonharam contigo,
outros até tentaram
colorir teu canto
para dar de comer
aos olhos.
Muitas crianças
descobriram o céu
ao tentarem acompanhar
teu vôo.
Farão o melhor
de suas vidas
evocando
– sem notar –
tua intimidade
com os ares.

segunda-feira, 15 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: IV




A desordem dos fluidos.
As penas úmidas
não namoram mais os ventos.
Tua imagem
espelha
a própria solidão
pedestre.
Essa condição
dos que têm somente
a terra para pisar.

domingo, 14 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: III




(Por que será
que todo pássaro morto
parece ter morrido
de frio?)

terça-feira, 9 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: II




Não sei do que te chamo:
de pássaro ou de pombo
(pombo é pássaro?)
tal é a confusão
entre os restos
da véspera
e estes teus restos
na manhã sem
alvorada.
Não te resta mais
que aguardar
pelo zelo
de uma pá de lixo.
As copas das árvores
do bairro
não te aguardam,
tampouco os fios
telefônicos.

sábado, 6 de março de 2010

sete poemas para um pássaro morto: I



Depois da primeira meia-hora passada, os minutos de frivolidade dão licença para uma série curta de sete poeminhos intitulada "Sete poemas para um pássaro morto". Segue o primeiro.


Estampas a calçada
– no caminho para a padaria –
com os arabescos
pobres
de teu corpo
de pouca pluma
e pouco estofo,
Teus pulmões
vazios, definitivamente.
Teus olhos vazados
pela manhã gris
têm já a tonalidade
da sarjeta.
O que era
a memória pouca
de canto e vento
já não é mais que
esquecimento.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

minutos de frivolidade: XXXIII



Dois versos tristes
escorrem pelas paredes
do edifício vago
da memória.
As bestas logo chegam
– num balé mudo –
cheiram seus pés
e lambem os cantos
de suas bocas secas.
Repousam ungüentos frescos
Sobre as feridas em flor
e encontram um pouco
de aguardente
para matar a sede.

Já algum sorriso é possível,
já algum prazer em deitar-se ao sol.

Eu fico à espreita.
Ataco, por fim, um tanto afoito.
Feroz, lhes vasculho
as gargantas, os pulmões.
Reviro-lhes as tripas
chupo os ossos
sugo fluido por fluido
a indagar por um segredo
que resta oculto, inaudito.
Abandono suas carcaças
rotas, dilaceradas.
Não lavo nem as mãos
nem a boca.
Deito e durmo.

Já não há mais do que comer e beber,
não mais que olhar pela janela.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

minutos de frivolidade: XXXII




Um muro é um muro
aqui ou no Arizona
lá ou em Port-au-Prince.
Ergue-se diante dos olhos.
Separa dentro e fora.
Veste cores constrangedoramente pálidas.

Um muro é um muro
em São Cristóvão ou em Santa Marta.
Lá, ou no 6ème arrondissement.
A maior medida da menor distância
a mão, espalmada
o não, impronunciado.

Um muro é um muro.
Pois é o que foi
e o que há de ser.
Caiado ou coberto de heras
erguido pedra por pedra.
A presença que não se pode ver.

Um pronome irremovível
entre eu e você.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

minutos de frivolidade: XXXI



O silêncio
posou sobre meu ombro
como o mais elegante
dos pássaros.

sábado, 30 de janeiro de 2010

minutos de frivolidade: XXX




Do verão, valem mais
as noites que os dias.

A lua marcou
– às sete –
a hora mais alta
de seu cio.
Sua órbita reivindicou
para si
os mares
e todos os fluidos
escorreram para o leito
de seu ventre dilatado.

Em sua face branca
São Jorge deu folga
ao dragão
e acenou para mim.

Eu rezava
para que a cidade
apagasse suas luzes
e assim as mulheres
e os homens pudessem
sair para as ruas
e beber as águas
dos córregos
junto com outros
animais sedentos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

outras aventuras: beija-flor



para Gonzaguinha

Belo
É acreditar
Que se fez sempre a grande coisa.
O plantio de um beija-flor;
Uma onda, um espinho de estrela.

Ver-se patético e gigante
E dançar ainda que ridículo e supérfluo.
Acreditar em sorrir
Apesar desse mundo xucro
Que nos acorda de manhã
A martelar as janelas
E ofender a quem amamos.
Acreditar em amar
– Sandice lúcida e responsável
Que cultiva e exercita o hábito
Obstinadamente -
Apesar desse mundo com cara de patrão,
Este mundo com gastrite e testa sempre franzida.
Gostar de brisa e tempestade,
De chuva e de sol.
Gostar e ter asco,
E sofrer, e sofrer, e festejar,
E festejar, e esquecer, e esquecer,
E lembrar:

O se há de cumprir a tempo pleno

Acreditar que se é alguém
Apesar do mundo,
Apesar de não ser.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

minutos de frivolidade: XXIX



Escrevo no estio
Na avenida vazia
E massacrada pelos pés
Dos foliões de anteontem.

Girando mais depressa
As voltas da folhinha,
Eu antecipo as cinzas da quarta-feira
E prolongo o tempo de ficar mudo.

Nas frestas do calçamento
Já crescem algumas folhas miúdas
– de dormideira e de quebra-pedra –
Que haviam sido esmagadas, junto com a poeira.

Os americanos descobrem água gelada
Em uma das luas de Saturno.
Aqui, as mesmas rodas famintas
Prosseguem devorando borracha e asfalto.

A cidade transpira suas agonias.
Eu viro mais dois copos na Gomes Freire
E aguardo notícias de dois versos
Que vêm de ônibus de algum subúrbio.

O poema nunca termina.
Foi-se a caneta. Foi-se a semana.
Foram ver de qual lugar misterioso a vida emana
E restaram perdidas no azul tardio de uma cidade submarina.

sábado, 2 de janeiro de 2010

outras aventuras: mar e vento



O mar bate agitado:
Mar e pedra
Mar e pedra
Duas gaivotas se equilibram no vento que move o mar
Mar e pedra
Mar e pedra
Na pedra, os sulcos esculpidos pelo vento
Mar e vento
Mar e vento
O vento traz o sal do mar a minha boca
Mar e boca
Mar e boca
No sal do mar na pedra, eternidade
Mar e tempo
Mar e tempo
O vento leva a nuvem e traz, no céu, o sol
Mar e vento
Mar e vento
O tempo é o vento batendo em meu rosto
Desalento
Desalento


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

outras aventuras: hexacampeonato



Prezados leitores e amigos. Segue um texto de meu amigo Dudu, que, de Paris, acompanhou angustiado ao título do Flamengo no campeonato brasileiro, depois de um intervalo de dezessete anos. Para quem acha que futebol é uma bobagem, temos aqui a medida de uma paixão. Boa leitura!

Há memórias que repousam na soleira que conecta o consciente e o subconsciente. Eu me lembro da minha festa de três anos, na casa dos meus padrinhos em Inhaúma, vestido com o macacão preto da Lottus que o Senna pilotava e que a minha mãe havia costurado pra mim.

Lembro-me também do dia em que entrou um passarinho pela janela lá de casa, na Vila da Penha, e do meu pai pegando o passarinho pelo paletó. Eu devia ter uns quatro anos. Logo depois eu me mudei dali com a minha família, e fomos morar no Engenho Novo.

Eu não me recordo dessa casa no Engenho Novo, salvo a sua cozinha. Isso porque nela ha a imagem indesfiguravel da minha mãe cortando carne no lusco-fusco da tardinha, num daqueles instantes que duram até hoje, até sempre. Virei para ela e perguntei "Mãe, você é Flamengo, né?" Ela respondeu que sim, e eu disse "Eu também sou Flamengo".

O meu pai é vascaíno, e havia selado um pacto com a minha mãe rubro-negra (cujo pai, meu falecido avô Lauro, era tricolor): ninguém iria me dar presentes de time até eu decidir por conta própria. Como meu pai rompeu unilateralmente o acordo, comprando-me sei-la-o-que do Vasco, minha mãe apressou-se a comprar o uniforme inteiro do Flamengo - o qual, mais tarde, ela foi dar (inautorizadamente) para o filho da faxineira lá de casa. Tudo bem, o garoto deve ter ficado muito feliz. Eu fiquei triste de perder a minha primeira camisa do Flamengo, isso não se faz. Era aquela camisa branca com as mangas em vermelho e preto.

Só sei que não me lembro dessas pressões de pai e mãe terem me influenciado decididamente. Naquela cozinha, nos idos de 1987, brotou, não se sabe lá muito bem da onde, aquilo que em mim foi objeto de maior constância ao longo de toda a minha vida. Sem duvidas.

Depois foram infinitos momentos. Eu escutava, sozinho no meu quarto, os jogos por um radinho. Ficava deitado no chão com o ouvido grudado, como se o radinho fosse um travesseiro. Quando o Flamengo perdia, eu chorava.

Numa ocasião eu ganhei um carrinho de ambulância de plástico, esses brinquedos vagabundinhos, mas aos quais as crianças se apegam sem muitas explicações. Era uma ambulância no modelo Gran Caravan, vocês devem lembrar. Pois é, ai um dia o meu pai veio me dizer que aquela ambulância levava o Zico dentro - para quem não se recorda ou não sabe, o galinho teve a perna quebrada em uma entrada criminosa do Marcio, do Bangu, em 85. Eu fiquei muito impressionado com o que o meu pai me disse, e imaginava a situação do Zico na ambulância.

Em 92, na final do campeonato brasileiro, Flamengo x Botafogo, era também o aniversario de alguém lá na casa dos meus padrinhos. Porra, eu só queria uma coisa, e não era pedir muito: ver, ou, ao menos, ouvir o jogo. Como as pessoas pareciam estar cagando solenemente para a decisão, me fechei num quarto lá e escutei a partida num radio toscão. Mas deu pra escutar os três gols que o Mengão meteu no Botafogo, tendo praticamente assegurado a fatura. Naquele quarto, reclamando do barulho e sendo repreendido por reclamar, eu tive certeza de que as pessoas não sabem aquilatar a dimensão de uma final de campeonato brasileiro. Mais do que isso: que elas não sabem aquilatar nada! E olha que o meu olhar, mesmo com tão tenra idade, era clinico para isso. Em 1989 eu chorei, também lá em Inhaúma, ao término da apuração das eleições em que estava confirmada a derrota do Lula (mesmo tendo o meu pai feito campanha para o opositor). Deu no que deu, e eu já sentia o que significavam essas coisas desde aquele tempo.

Pois é, agora chegou mais um daqueles instantes para cuja grandeza apenas um cego espiritual não consegue render o devido valor. Essa semana já não faz mais sentido nenhum, ela começou no domingo e só volta a existir outra vez no domingo vindouro. Aliás, esse será, parodiando o historiador, o breve ano de 2009, que começou no carnaval e terminara no domingo, dia 6 de dezembro. Queiram os deuses do futebol, os deuses do Maracanã, que o breve 2009 também acabe em carnaval. Mais do que isso. Em o Flamengo levando esse titulo tão feito para ele, tão alma-gêmea sua, o 06 de dezembro do breve 2009 será dia em que vira ao mundo uma nova forma de manifestação, algo como um carnaval-reveillon-título de copa do mundo ao mesmo tempo, diferente e maior, muito maior. Vai ser, em todos os sentidos, sinistro.

No 06 de dezembro estaremos aqui em Paris eu, Do e seu irmão Olavo, Guilherme e seu camarada, todos conectados pelo skype com o Gugu, em Barcelona, para testemunharmos, todos juntos, esse momento de ruptura do espaço-tempo. Muitos de vocês irão presenciar pela primeira vez o alarido ensurdecedor de um fenômeno de massas incontrolável, um desses tipos que apenas são superados pelas revoluções. Aos demofóbicos, aconselho subirem para a serra. Melhor, aconselho saírem do país. Mas, honestamente, acho que o mais legal é sair de casa e sumir na massa para ver a historia se fazendo nas ruas.

Saudações,

Dudu

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

minutos de frivolidade: XXVIII




Talvez os astronautas
não tenham conseguido
ler nas nuvens,
estendidas de azul
a azul
os veios
- tão óbvios –
de Aqueronte e
Aquerúsia. Distraídos,
de tanto negro
e de muita légua,
não viram os
assassinos
lançados no Tártaro
ou no Cocito.
A fila dos maus filhos
Rumando para
Periflegeteonte
também passou
despercebida.
Afogados
de luz e sombras,
só puderam ver o azul
e replicar o espanto
de Tales, desastrado,
ao cair em um buraco.

Do primeiro filósofo
ao último cosmonauta,
vale o que sonhamos
sobre o caminho
das almas.
Vale mais o que
os olhos não podem ver.
O que as mãos não podem
tocar.
Vale mais um segundo,
em silêncio, sentindo
o cheiro do mar.
Vale mais um acorde
que se acomoda
como um felino
na mais improvável
cavidade do peito.

Vale mais
a imprecisão
de navegar.

sábado, 31 de outubro de 2009

minutos de frivolidade: XXVI




Preciso, talvez, de

alguém que me conte
sobre verdes campos.
A morada das almas.
Onde tenha um adro
de pedras gastas
todo perfumado daquele
cheiro bom que escorre
das telhas em dia de chuva.
Que seja o reino
da verdade, por ser
o que possa haver
de mais idêntico ao sonho.
Uma frase, o sopro
perene do esquecimento:
tudo infância e repouso,
mesmo correr de pés descalços.
Porque só há como
suportar o cansaço
dos olhos e das mãos,
dando forma ao impossível.
Por isso dormem as crianças
Por isso despertam os adultos.
Por isso eu tenho sono.

Ouvi um homem dizer
que diante do amor
e da morte, nada
pode ser dito.
Por isso eu me calo.