sexta-feira, 19 de setembro de 2008

minutos de frivolidade: III


Sentei-me no banco atrás daquele em que ele se sentava.
Dizer que ele passava dos sessenta
Seria exagero,
Mas lá se iam os quarenta e muitos.

Vestia camiseta vermelha
E um All Star da mesma cor.
Carregava um violão.
Óculos escuros seguravam a cabeleira loura e um pouco rala
Que ia até os ombros pontiagudos e curtidos pelo sol
Cujos ângulos retos saltavam da camiseta sem mangas.

Através da barba russa e de um bigode gasto
Cutucava os dentes nervosamente com um palito
Assim como fazem os gordos típicos dos botequins
Entre um gole de cerveja e uma sardinha frita.

Era um surfista!
Não há dúvidas.

Quinta-feira, 21 de junho, dezenove horas, primeiro dia de inverno, em plena Men de Sá engarrafada, uma luz âmbar triste e sisuda, a entrada pálida do IML, essa gripe insistente, essas mangas de casaco por cima das mangas da camisa de cor escura, o barulho quimérico dos motores, os gritos agoniados da cidade em fim de expediente, tudo escurecendo com uma sobriedade nervosa, que trás na barriga uma besta espumante.

E eis um surfista quarentão!

Um resto de juventude,
Uma aparição quase fantasmagórica,
Encrostada na carne abatida,
No cinzento banco de ônibus.

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