segunda-feira, 20 de outubro de 2008

nota

Este espaço não se destina a este tipo de assunto, mas o caso é tão lamentável e revoltante que não é possível contorná-lo. Durante toda a última semana, o noticiário narrou um caso de seqüestro na cidade de Santo André, em São Paulo. Lindembergue Alves manteve sua ex-namorada, Eloá Pimentel, de 15 anos, em cativeiro desde a segunda-feira, dia 13 de outubro. Além da adolescente, estiveram sob o controle do seqüestrador outros dois jovens e uma amiga de Eloá, Nayara Silva.

Como já foi amplamente comentado pelos veículos de comunicação, o seqüestro teve um fim trágico nesta sexta-feira, 17 de outubro: Eloá foi atingida por um tiro na cabeça e outro na virilha e está morta; Nayara levou um tiro no rosto e se recupera da cirurgia no hospital.

Toda a ação da polícia foi um desastre. Eu não pretendo, porém, fazer uma análise dos pormenores técnicos que foram desrespeitados (até porque não sou especialista em táticas de ação policial em situações de seqüestro).

Existe uma questão menos técnica e mais ética e que diz respeito a um fato particular do seqüestro: na noite de terça-feira, Nayara foi libertada pelo seqüestrador; mas na manhã de quinta-feira, ela retornou ao cativeiro. Isso mesmo, a narrativa do caso beira o absurdo: um refém é libertado e depois retorna ao cativeiro. Segundo a polícia, o retorno de Nayara à situação de refém fazia parte da estratégia de negociação. Narrando de outra forma: uma adolescente estava em situação de refém, foi libertada, mas foi posta no cativeiro novamente pela polícia, porque esta considerou que a privação da liberdade da menor e a colocação de sua vida em risco faziam parte de uma estratégia de negociação.

No cálculo estratégico de perdas e ganhos, a polícia utilizou a vida de uma pessoa como moeda de negociação. Sem que eu conheça nada de táticas policiais, me parece que em uma negociação de libertação de reféns o correto deve ser trocar coisas, palpáveis ou não, por vidas: oferece-se um carro, um helicóptero, um milhão de reais, uma garantia de não agressão, etc ao seqüestrador, em troca da liberdade dos reféns.

Um ato praticado recentemente pelo Exército em operação em uma favela do Rio de Janeiro possui o mesmo caráter da ação policial do seqüestro de Santo André. No caso do Rio de Janeiro, o Exército seqüestrou e entregou três jovens ao cativeiro controlado por traficantes de drogas. No cativeiro, David Wilson Florêncio da Silva, 24 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17 foram mortos por traficantes do Morro da Mineira. Os soldados envolvidos no crime alegaram que só queriam dar um susto nos rapazes. Em Santo André, a polícia alega ter agido estrategicamente.

Ao que parece a polícia perdeu de vista uma das cláusulas pétreas do pacto que a legitima: proteger os cidadãos. O caso é que, além dos erros táticos que todos esperamos que sejam esclarecidos, a partir do momento em que o Estado entrega a vida de uma pessoa a um potencial assassino, ele passa a ser co-autor de qualquer decorrência dessa atitude. Nenhum argumento estratégico pode dar conta de contornar este fato. O debate sobre o seqüestro não pode perder de vista o fato de que o Governo do Estado de São Paulo, sob a representação de sua Secretaria de Segurança, foi co-autor do crime de seqüestro. O limite entre a negociação estratégica e a participação no crime foi ultrapassado. Junto com Lindembergue Alves, devem ser julgados, inclusive criminalmente, os policiais e o comando envolvidos na operação. O Governo do Estado de São Paulo também deve responder pelo seqüestro e seu desfecho.

Nem todos os minutos do cotidiano são frívolos. Este é dedicado à memória de Eloá Pimentel, David Wilson Florêncio da Silva, Wellington Gonzaga Costa, Marcos Paulo da Silva e todos aqueles que têm seus nomes esquecidos entre as frias cifras das estatísticas sobre o crime e a violência.

2 comentários:

isadoravp disse...

Obrigada, André. Por dar voz ao que havia já em mim perdido a voz. Lembrando o Brecht e Saramago, penso que em tempos tenebrosos como esse nosso nada pode ser tido por normal, porque o absurdo ao se fazer cotidiano rouba-nos a capacidade de discernir. Já que não vemos bem, duvidemos.

André D'Abô disse...

Olá Isadora,

Eu é que agredeço sua leitura. Sabe como é, escrever na internet é como mandar mensagens em uma garrafa. A gente joga no mar e de vez em quando fica dando uma olhadinha para ver se chegou alguma resposta. Fico muito feliz quando vejo seus comentários. Um grande abraço.