segunda-feira, 27 de outubro de 2008

outras aventuras: a morte de antônia


(foto: Thiago Aquino)

No dia em que morreu, Antônia descobriu que a vida tinha sido uma grande farsa. Uma barata pousada na parede do banheiro agigantou-se, arreganhou o ventre e engoliu Antônia sem nada explicar. O ventre da barata era uma folha em branco na qual a consciência de Antônia ia se diluindo.

Muitos já tinham conhecido esse destino por meios diferentes: pardais gigantes; buracos negros na avenida Rio Branco; discos voadores; poltronas, camas, bibelôs e luminárias que ganhavam vida; ataques de riso nos quais a própria risada consumia seu dono; ralos de pia pelos quais escorriam a cozinha, a sala, o prédio, todo o quarteirão; e outros tantos acontecimentos cujo interior era o avesso do mundo, aquela folha em branco. Para cada um, a sua maneira, chega o dia dessa revelação que é puro esquecimento.

2 comentários:

Charlotte disse...

Podem essas sugadouros, essas folhas em branco, ser o ponto de partida para qualquer outra coisa? Uma vida mais lúcida, menos farsante? Se sim, que venha uma barata grande, ou um ralo de banheira.

André D'Abô disse...

charlotte, nas frestas da loucura diária que encontramos às vezes a lucidez. busquemos suas pequenas revelações.