sábado, 22 de novembro de 2008

minutos de frivolidade: XIV


(foto: Thiago Aquino)

Um refogado delicioso.
O peixe entranhado na calçada e na sarjeta.
Um bocado de criolina:
Era a feira.

Algo entre lavanda e alfazema,
Entre lírio e jasmim,
Misturava-se à graxa e ao óleo queimado
De algum motor,
Das vísceras mecânicas
Reviradas nas portas das oficinas.

Muitas coisas se misturavam
Nos ares da cidade às seis da tarde.

As glândulas de cada esquina
– De cada corpo cansado,
De cada copo de cerveja,
Dos postos de gasolina
E das buzinas impacientes –
Recendiam o que ficou guardado
Da fúria dos dias.

Os suores e os amores,
As paixões surdas,
Os rancores adiados.
Tudo aquilo que repousa ou se angustia
Entre as pernas de cada um.

Os clamores e as lágrimas,
Os prazeres e suas secreções,
Os tédios, as pressas,
As taras e as dores.
Todas as alucinações deste dia
Ardiam pelos canos de descarga
E empestavam as cores
Desse fim de tarde.

E o mundo
Como depositário das cinzas
Dessa paisagem cega
Veio parar justo aqui.
Na página restante
Desse meu caderno,
No último verso
Desse minuto.

4 comentários:

Marcelo disse...

Gostei muito. Costumo dizer que a poesia está sempre a vista. Poeta é aquele que a vê e a organiza.
E o cotidiano... como é rico!

André D'Abô disse...

marcelo,
riquíssimo mesmo. ela está mesmo sempre vizível, o que a torna de difícil visão para aqueles que teimam em não ver a floresta por causa das árvores.
um abraço.

Andre Luis do Nascimento disse...

Canalha, esse poema era pra eu ter escrito! hahaha

André D'Abô disse...

andre,
tenho o mesmo a dizer de vários de seus poemas. :)