terça-feira, 4 de novembro de 2008

minutos de frivolidade: XII


(foto: Thiago Aquino)

Mamãe desceu da sala de cirurgia,
Pediu para que eu lhe coçasse o nariz
E perguntou se estava bonita.
A mim me parecia que o útero subtraído
Nada havia alterado de sua bela fisionomia.

Dona Maria da Graça,
Em uma semana de internação
Não descuidou um segundo
De retocar o batom
E manter os cabelos penteados.
Preocupava-se de não ter um quimono mais jeitoso
Para vestir ao receber as visitas
Entre uma e outra garrafa de soro.

Dona Vera,
Passados os oitenta,
Muito se incomodava com o papo
Que se insinuava por baixo do seu queixo
E estava decidida a fazer uma plástica,
Assim que resolvesse o problema do joelho.

A vaidade
Quando não se torna ferida purulenta
É mesmo a mais bela das virtudes.

2 comentários:

Charlotte disse...

Muito bonito este texto. A vaidade saudável, penso eu, é sinal de amor próprio e de um enorme respeito pelos outros.

André D'Abô disse...

charlotte,
obrigado pelo comentário. tens sido minha leitora mais freqüente.
é ótimo ser lido: alimenta minha vaidade saudável.
um abraço.