sexta-feira, 7 de novembro de 2008

outras aventuras: marrom e cinza


(foto: Thiago Aquino)

Nasci e me criei
Na beirada do cais do porto
Bem perto do turbilhão de cores do carnaval.
Mas as minhas lembranças de infância
São todas em marrom e cinza.
São todas da cal pálida
Das fachadas da igrejinha
E dos sobrados antigos.

O mar mesmo eu vi poucas vezes.
Uma linha quase negra
Que se debruçava por sobre os telhados
Dos prédios ao longo do cais
Como a água equilibrista
Em copo cheio até a borda.

Marrom o chão de tábuas corridas
Marrom nos cabelos cacheados das minhas tias
Marrom o quebra-pedra
Crescendo entre o cinza dos paralelepípedos
Marrom nos bancos da igreja
E na carne do Cristo em tamanho natural
Que todo domingo
Eu ia ver se havia fugido da cruz
Cinza nas calçadas em fim de tarde
Cinza na parede de contar o pique-esconde
Cinza a escadaria ao longo do muro alto
Caiado de cima a baixo.

Vermelho mesmo eu lembro muito pouco.
Só nas roupas dos exus fajutos
Da vizinha macumbeira
E nos setes belos do carteado
Que ela promovia à noite
De frente para o gongá.
Um pouquinho de verde
Nos olhos do meu pai
E um amarelo vivo nos do nosso gato preto.
Um dourado dos dedos e dos pulsos de minha mãe
Cobertos de bijuterias.

Meus primeiros versos
Têm sobrevivido bem
À primeira década de convívio com outros papéis
Guardados no canto do armário.
Estes versos aqui
– Retirantes da memória –
Sobreviveram nas cores pálidas
De outros muitos anos de esquecimento.

2 comentários:

eduardotomazine disse...

Uma lida já com seu respeito e seus calos. Sem exagero: dos poetas que eu conheço, assim,
de-carne-e-osso, você é aquele que mais admiro. Siga frivoleando faz favor, viu?

André D'Abô disse...

certamente, amigo. continuarei a compartilhar minhas frivolidades. obrigado pelo comentário.