sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

outras aventuras: aniversário




Daqui a três dias, eu faço aniversário.
É um mistério essa brincadeira
De ser medido em arbitrárias unidades de tempo.

Vinte e quatro anos
(Quase vinte e cinco).

Sobrevivi à luta entre as bactérias e os meios hostis,
Entre plantas venenosas e herbívoros famintos.
Rolei entre garras sujas de carne fresca
E mandíbulas salivantes
A seta entre os olhos e a presa
O grito bestial e o silêncio da digestão
A agonia dos sexos se esmagando
A dor e o esquecimento
O prazer sem dia seguinte
As sementes rompendo lentamente a face suave da romã tardia
As mangas apodrecendo nos fundos baldios da casa abandonada
O abandono dos corpos ao sono
As palavras que não foram ditas
Os versos inéditos
O amor fugaz entre a vela e o vento
O porão do navio negreiro
A fome noturna e o pátio da fábrica
O espetáculo ruidoso dos ônibus lotados rumo ao centro da cidade
A dissolução da multidão nervosa
A forja diária do real pela notícia
(Cada manchete
uma martelada no aço quente do cotidiano
sobre a bigorna fria do cansaço).

Vinte e quatro anos
(Quase vinte e cinco).

Acordei exausto
Em algum lugar da minha infância
Com a barriga cicatrizada
Onde haviam cortado e enterrado um segredo
Do qual a única pista que tenho
É o tempo e seus sintomas,
Cuidadosamente mensurados:

Vinte e quatro anos
(Quase vinte e cinco).

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