segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

minutos de frivolidade: XVII


(foto: thiago aquino)

Na estante há alguns discos
E livros dos que li
E muitos outros dos que quero ler
Na parede três quadros lindos
Pintados por Dona Vera
Após seus setenta anos.
A mulher que amo dorme no sofá
E a luminária dá uma luz quentinha
Que se choca com o vento fresco
Do ventilador de teto.
O relógio de parede marca 1:35
E meu relógio de pulso parou.

Muitas coisas foram dispostas
Por outros cômodos da casa
Dentro de gavetas e atrás de portas de armários.

No apartamento de cima
Há outros cheiros e formas
Impregnados nas paredes
E nas imagens refletidas nos espelhos.

Não sei bem o que quero
De tudo isso de que me cerco.
Sinto apenas essa vontade
De fazer mundos em surdina
De fabular pequenos segredos de existência
Pequenas totalidades
Um apanhado de histórias incompletas
Um lugar – que talvez seja agora este sofá –
Para guardar o sono da minha mulher
E de onde ela me veja sempre
Com olhos de quem ama
Um enredo que acolha nossos filhos
E que seja posto em questão por eles
Um pedaço qualquer de chão
De onde rir com meus amigos
Uma casa, quem sabe,
Mas que tenha janelas para muitos outros mundos.

Para que, assim,
Eu jamais me torne um exilado
De mim mesmo.

6 comentários:

Charlotte disse...

Apetece morar nesse sítio que descreves com placidez. A isso se chama Casa. E a casa não tem que ter tecto nem paredes. É o espaço indefinido onde moram os nossos afectos e os nossos sonhos, o que nos prende e o que nos liberta. Porque somos feitos de tudo isso.

Muito bonito, André!

thiagoaquino disse...

Rapaz, como é bom ter alguém que consegue dizer isso que a gente apenas sente. Obrigado por alegrar essa tarde iluminada de sol e chuva, e por fazer sentir essa estranha compreensão das coisas. Abraços apertados!

André D'Abô disse...

Charlotte,
Que nossas Casas sempre inspirem boas visitas como a tua. Obrigado por teu comentário.

Thiago,
É ótimo tê-lo por aqui... aqui em casa.

jaqueline gomes disse...

as vzs passo aqui e mts das vzs gosto do que leio e sempre [mesmo] gosto do que vejo. essas imagens são lindas e acompanham belas palavras - nelas, há poesia.
até mais.

André D'Abô disse...

olá jaqueline,
seja bem vinda!
passei lá no seu blog e também gostei muito do que li e vi.
um agraço

thiagoaquino disse...

Olá Jaqueline. Muito obrigado pelo elogio. Suas fotos e textos são muito especiais (digo isso sem o veneno do consolo...), e recomendo aos desavisados que vierem fuxicar esses comentários que vão lá conferir...

Abraço!