sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

outras aventuras: julio e a glória


(foto: thiago aquino)

Os lugares, às vezes, guardam alguma memória das pessoas. Julio, ou melhor, Alfredo Julio Quevedo – se me recordo corretamente de seu nome completo –, argentino, meu padrinho, passou no Rio de Janeiro os últimos cinqüenta anos de sua vida; era garçom de profissão, mas viveu de vender quinquilharias de todos os tipos nas calçadas do bairro da Glória, no trecho próximo ao Museu da República. Morou com tia Darci, lá em casa, por uma década, uma década e meia, talvez.

Eu era menino e não sabia onde ficava a Glória. O quarto ocupado por tia Darci e Julio tinha o cheiro daquelas coisas que eram levadas em sacolas grandes de couro para a venda na Glória. Aquela variedade de objetos de segunda, terceira, quarta mão resultava naquele odor bem definido que não mudava, apesar de jamais se repetir, sequer por um só dia, o conjunto de tralhas no pequeno estoque, que seguia em lotes para a Glória e voltava de lá sempre modificado, com algumas peças vendidas, outras novas, adquiridas por troca. A circulação daquelas miudezas, dia após dia, sedimentou nos móveis e nas paredes do quarto aquele cheiro de brechó.

Eu gostava de brincar com as armações de óculos de todos os tipos e épocas, com os bonés, chapéus e boinas, com os carrinhos, com o pote cheio de chaveiros de infinitas cores e motivos, com as bolsas e carteiras, com a lata cheia de broches que traziam dizeres em línguas que eu não entendia, com os aparelhos telefônicos, com os troféus, com os uniformes de soldado, de estudante e de rodoviário, com os sapatos e chinelos sem par, com as revistas antigas, com os controles remotos de sei lá quais aparelhos, com o estetoscópio, com os binóculos, com as gravatas – sobretudo as borboleta –, com as máquinas de escrever, com as perucas e com as garrafas em miniatura de bebidas que eu não conhecia o gosto; enquanto Julio tentava consertar um rádio de pilha para levar para a Glória no dia seguinte.

Julio morreu e eu cresci. Trabalho na Glória e, um dia desses, ao andar por uma de suas calçadas, em um estalo, me dei conta de que estava diante daquelas lonas cheias de coisas usadas à venda, estendidas no chão. Sentados em tamboretes, ou mesmo no chão em uma das pontas da lona, estavam aqueles mercadores da Glória – os que vivem de vender aquilo que já seguia para os aterros sanitários. Cada artigo à venda era um pedaço do sorriso de Julio, era o Julio mesmo a pronunciar meu nome, sem o acento, como soava em seu sotaque castelhano. Passei o resto do dia sentindo o cheiro daquele quarto.

4 comentários:

Charlotte disse...

O cheiro. O cheiro é dos sentidos mais poderosos no que toca a resgatar memórias. Quantas vezes, um perfume reencontrado num frasco velho ou à passagem por alguém desconhecido nos faz recordar uma época da nossa vida, uma pessoa, um episódio, uma casa... O cheiro é como a chave que abre as gavetas da nossa memória.

Acrescento que este post aguçou-me a vontade de visitar o Rio. Um dia passear-me-ei pelas bancas da Glória.

Um abraço

André D'Abô disse...

tenho muito disso de lembrar de coisas pelo cheiro... terão outros textos com este tema.

espero que venhas mesmo, há outros lugares que habitam minha memória com seus cheiros que poderia mostrar-te.

um grande abraço e obrigado por sua presença por aqui.

Eduardo Tomazine disse...

Poxa, André. Assim você me emociona em demasia... Pega leve, cara!

André D'Abô disse...

olá querido eduardo,
fico feliz que o texto o tenha emocionado na mesma medida das emoções que me levaram a escevê-lo.
um abraço e espero que você esteja sempre por aqui.