quarta-feira, 4 de março de 2009

outras aventuras: carta


(foto: thiago aquino)

Já faz algum tempo
Que todos os homens grisalhos
Deram de desfilar teu rosto
Por todas as esquinas

Em cada carro veloz
E cada ponto de ônibus
E cada sinal fechado
Vejo-te e somes ligeiro

Chego a te olhar mais longamente
Ensaio um aceno, mas desisto,
Olho novamente e te sigo
E, quando te alcanço, és outro

Somente na memória é que duras
E dura meu tempo de menino
Em que eu vigiava cada detalhe
Para me tornar igual a ti

Não sei qual trapaça do entendimento
Qual astúcia da razão ou da lembrança
Moveu o tempo em surdina
E fez de tua ausência, esta onipresença fantasmal

Povoas, meu pai, minha sombra
Meu jeito de sentar e de sorrir
E mesmo este rosto que vacila diante do espelho
É o avesso de tua assombração.

4 comentários:

tánachuva disse...

Bela "carta ao pai", sem o ressentimento kafkiano...

Um abraço,

Dudu.

Isis disse...

Realmente lindo... Com a sutileza de um grande poeta.

André D'Abô disse...

querido dudu,
sempre com tê-lo aqui... obrigado pelo comentário.
bom saber que não enchi o texto de rancores.

meu amor,
fiquei muito feliz por receber este comentário seu. você é minha principal leitora. avalio o estar das coisas pelos meus fracos sentidos e intuições e por seus juízos... bom saber que ando bem como poeta... fundamental ter você por aqui.

rafael disse...

Caro Aliás,

Aliás, as fotos são ótimas.

Salve, salve Thiagão!

M.