domingo, 31 de maio de 2009

outras aventuras: soneto de desprezo


(foto: thiago aquino)

Pouco me importa que você não saiba ao certo

Se o texto guarda em si a rima consoante,
Ou marreta firme a pauta, a dor toante
Que traz o que está longe e afasta o que está perto.

Posto que eu trouxe de viagem cada verso

No lombo de uma mula manca e delirante.
E do agreste de um peito dolorido e errante
Eu fiz bagagem, teto, cama e fiz um terno.

Pouco me importa o quanto vale a frase esdrúxula
Ou se me pagam o ordenado com vintém,
Se dessa chuva resta rastro ou resta dúvida,
Ou se só faz meus olhos vagos de refém.

Pouco me importa que só sobre o rosto úmido
Ou que essa vida seja só esse desdém.

6 comentários:

Pata Negra disse...

Porra, por aqui entorna-se poesia, daquela que se compreende! Avô, tenho quase esvaído o estado de poesia, não sei se é sede de água, se me falta o sangue, materei o contacto, frívolo? talvez não! a vida também se puta em poesia! parabéns pelo manejo da palavra, na garroja do verso e na arena de todos os poetas que ousam cantar... ainda há poesia!
Um abraço de entre um verso abafado

André D'Abô disse...

olá caro pata!
trabalho duro mesmo esse da palavra cotidiana. bom saber que esta labuta esteja entornando poesia por aí e que o estado de poesia esteja mais presente.
continuemos por aqui.
obrigado por sua presença. grande abraço! há poesia ainda! alguma há!

Nocturna disse...

Caro André D'Abô
Vi seu comentário no blogue do querido e Majestoso Rei dos Leittões (é o meu Rei preferido, eu diria que é o único Rei de que gosto). Aí no Brasil,também há políticos como este Vital português. Ando um pouco informada acerca do que se passa no Brasil através da TVGlobo.
Para nos fazer esquecer a miséria dos políticos que nos governam, felizmente há a poesia e os poetas.
Passei por aqui e gostei das suas palavras.
Obrigada por partilhá-las connosco.
Um abraço de Portugal
Nocturna

PS. O pior da política por aqui é que, amanhã, este tal Vital, vai ganhar as eleições !!

André D'Abô disse...

olá, nocturna:
realmente, é preciso de poesia para irmos adiante.
espero que a poesia seja um exercício não somente de esquecimento - para suportação do real -, mas também de memória, para que possamos subverter a ordem sobre a qual se apoiam os Vitais da vida.
obrigado por passar por aqui.
um abraço.

DoeDu disse...

andré querido,
seus versos chegam por aqui. um sopro de primavera. um beijo dos amigos que te visitam na calada do dia.

ps: procure a biografia do Balzac escrita pelo Stephan Zweig. Vale a pena...

(acima quem fala é o dudu. só estou dizendo porque dificilmente vc descobriria, né?)
mais beijos nossos,
dó e du

André D'Abô disse...

queridos dó e dudu!
que saudade!
espero que estejamos mais perto por aqui.
abração!