quarta-feira, 17 de junho de 2009

minutos de frivolidade: XXIII


(foto: thiago aquino)

O vento fresco e o sol do final da tarde
Entraram pela janela do ônibus.
Ergui a cabeça e fechei os olhos.
Após a curva, estava no centro da cidade.

Meu pai deve estar vendo a novela
E aguardando o resultado de alguns exames
Para ter algo que finalmente o determine;
Um imperativo categórico qualquer
Inscrito em laudo médico.

Ele perde, aos poucos,
O acesso a um vocabulário
Que possa expressar o que acontece com seu corpo.
Em hemogramas, tomografias, exames de urina,
Ficam impressos juízos irrevogáveis
Acerca do que se passa em surdina.

Ele fica calado
Eu também.

Sem dizer nada sobre nós,
Falamos sobre todo o resto:
Cada item do telejornal,
Os capítulos de todas as novelas,
A última rodada do futebol nacional,
Especulamos sobre o fim do mundo,
Sobre o Papa, sobre o presidente,
Lembramos filmes antigos,
Repetimos cenas inteiras de alguns mais recentes;
Tudo vira material para vencer o silêncio.

Meu pai vai morrer e eu vou também
Até minhas jovens sobrinhas morrerão.

Só aquele vento fresco e o sol tardio
Estarão sempre aqui.

5 comentários:

Pata Negra disse...

Mas se cumprires a poesia das coisas em cada dia, todos os dias terás lenha para o sol!
Um abraço com a luz nossa de cada dia

André D'Abô disse...

caro pata:
tens razão... trago no bolso a poesia para ter lenha para o sol.
um abraço grande!

Andre Luis do Nascimento disse...

Esse poema tornou-se especialmente lindo, não sei se você percebeu. Estou grato por ter podido viajar um pouco.

André D'Abô disse...

caro andre:
já o reli algumas vezes... para mim soa mais bonito também. obrigado a você por estar por aqui.

S.... disse...

André..

Esse poema é lindo e bastante catártico. Faço minhas as palavras aqui em cima (tornou-se especialmente lindo, e não sei se você percebeu...).


simone