sábado, 11 de julho de 2009

minutos de frivolidade: XXIV


(foto: thiago aquino)

Foi nas escadarias
do Morro da Conceição,
em frente à igrejinha,
que aprendi a pensar
nas idéias eternas.

As pedras do adro,
o chão gasto
de tábuas corridas,
as manchas amarelas no teto,
a tintura velha dos portais.
Traços de um tempo
passado. Ultrapassagem
de mim nas cores
das telhas,
nos bicos dos pombos
ciscando, no pátio.

A chuva, apressada,
lavava as pedras
e restituía ao ar
o cheiro da passagem
das horas.
Segredos saíam das frestas
da casa antiga
a abraçavam a maresia.
Sons da noite, da calma,
flutuavam em decifração
de enigma.
Passos secos, nervosos,
escandalizavam o marasmo
do ensopadinho que esquentava
em fogo baixo.

Não foi em dia santo
que o Cristo veio ao mundo.
Junto à vitrola,
- uma quinta-feira, talvez -
descobri a beleza
que a professora de catecismo
nem sempre lograva extrair
da vida triste
daquele menino pobre.

As canções combinavam
com os olhos das moças
da Praça Mauá
quando elas me pediam
para pagar um café
com o troco do cigarro
que eu comprava
para meu pai
no bar da Boite Flórida.
Havia nelas qualquer coisa
que lembrava minha mãe.
Um cheiro, quem sabe:
hálito gostoso
vestígio de aventura
sopro interno
acrobacia da alma
em rodopio, caindo de pé.

Compus nas ranhuras das calçadas,
nas sombras para dentro
das quais corríamos
no pique esconde,
pequenas trevas, abismos,
que encontrávamos nas esquinas,
nos cantos das paredes
que cheiravam a cera
a século e a urina; ali compus
meus feitiços de aprendiz,
prendas de Cosme e Damião
que procuro atrás das cortinas,
nos olhos do meu amor
e nos sonhos que tento adivinhar
enquanto a vejo dormir.

Há quinze anos não vivo
naquele sobrado antigo.
Aquela casa que pensei
existir para além do tempo
não há mais.
Meu pai não vive mais.
O tempo em que lá estivemos
já é menor que o tempo
de nossa ausência.

Não há mais
quem viva naquela casa:
ela que vive -
assombração sem rosto,
ser gasoso de vigas
cobertas de estuque;
ela que vive em mim.


3 comentários:

Andre Luis do Nascimento disse...

Ah, o bom e velho André D'Abô repleto de sua infância! Como satisfaz o coração de quem lê! Beijos, amigo!

Pata Negra disse...

André, você é quem melhor escreve poesia entre os meus próximos.
Um abraço até ao próximo

André D'Abô disse...

caro andre:
me conheceu eu acabava de deixar esta infância que me povoa. obrigado por estar aqui.

caro pata:
fico muito grato pelo elogio... muito mesmo. seja sempre bem vindo. salve seu digníssimo reino. um abraço.