sexta-feira, 23 de outubro de 2009

outras aventuras: a pedro, um varão, que acaba de nascer




Caros leitores:
escrevo para compartilhar algo que esteve guardado, nos últimos meses, em minhas conversas caseiras e na minha intimidade um tanto dolorida. Não se trata do próximo passo nas séries de poeminhos e de pequenas prosas com as quais costumo pedir a companhia valorosa de seus olhos e ouvidos, sempre tão carinhosos. Nada que eu tenha escrito. É algo que vivi; e a respeito de que nada posso escrever. Trata-se da transcrição do belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade que lí para o meu Pedro, meu pai, na última vez que estive com ele; já pressentindo, talvez, que esta derradeira seria a definitiva. Para seus olhos carentes de conforto só pude encontrar alento nos trechos dos livros que carregava na bolsa e que de alguma forma me faziam sentir mais próximo dele: estas frases foram meu abraço, meu afago, meu beijo de despedida.

A um varão, que acaba de nascer

Chegas, e um mundo vai-se
como animal ferido,
arqueja. Nem aponta
um forma sensível,
pois já sabemos todos
que custa a modelar-se
uma raiz, um broto.
E contudo vens tarde.
Todos vêm tarde. A terra
anda morrendo sempre,
e a vida, se persiste,
passa descompassada,
e nosso andar é lento,
curto nosso respiro,
e logo repousamos
e renascemos logo.
(Renascemos? talvez)
Crepita uma fogueira
que não aquece. Longe.
Todos vêm cedo, todos
chegam fora do tempo,
antes, depois. Durante,
quais os que aportam? Quem
respirou o momento,
vislumbrando a paisagem
de coração presente?
Quem amou e viveu?
Quem sofreu de verdade?
Como saber que foi
nossa aventura, e não
outra, que nos legaram?
No escuro prosseguimos.
Num vale de onde a luz
se exilou, e no entanto
basta cerrar os olhos
para que nele trema,
remoto e matinal,
o crepúsculo. Sombra!
Sombra e riso, que importa?
Estendem os mais sábios
a mão, e no ar ignoto
o roteiro decifram,
e é às vezes um eco,
outras, a caça esquiva,
que desafia, e salva-se.
E a corrente, atravessa-a,
mais que o veleiro impróprio,
certa cumplicidade
entre nosso corpo e água.
Os metais, as madeiras
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada
é tão rude bastante
que nunca se apiede
e se furte a viver
em nossa companhia.
Este é de resto o mal
superior a todos:
a todos como a tudo
estamos presos. E
se tentas arrancar
o espinho de teu flanco,
a dor em ti rebate
a do espinho arrancado.
Nosso amor se mutila
a cada instante.A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso
Ah, libertar-se, lá
onde as almas se espelhem
na mesma frigidez
de seu retrato, plenas!
É sonho, sonho. Ilhados,
pendentes, circunstantes,
na fome e na procura
de um eu imaginário
e que, sendo outro, aplaque
todo este ser em ser,
adoramos aquilo
que é nossa perda. E morte
e evasão e vigília
e negação do ser
com dissolver-se em outro
transmutam-se em moeda
e resgate do eterno.
Para amar sem motivo
e motivar o amor
na sua desrazão,
Pedro, vieste ao mundo.
Chamo-te meu irmão.

(Em Claro Enigma, 1951)

2 comentários:

Charlotte disse...

Mais uma vez sinto-te próximo. Hoje não tanto pelas palavras, pela beleza delas, mas pelo adeus que também disse, há meses, afagando uma mão que me fugia.

Ao teu Pedro, ao meu Francisco.

Grande abraço

André D'Abô disse...

cara charlotte:
lamento por teu francisco. mais uma vez, obrigado por tua presença.