quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

outras aventuras: hexacampeonato



Prezados leitores e amigos. Segue um texto de meu amigo Dudu, que, de Paris, acompanhou angustiado ao título do Flamengo no campeonato brasileiro, depois de um intervalo de dezessete anos. Para quem acha que futebol é uma bobagem, temos aqui a medida de uma paixão. Boa leitura!

Há memórias que repousam na soleira que conecta o consciente e o subconsciente. Eu me lembro da minha festa de três anos, na casa dos meus padrinhos em Inhaúma, vestido com o macacão preto da Lottus que o Senna pilotava e que a minha mãe havia costurado pra mim.

Lembro-me também do dia em que entrou um passarinho pela janela lá de casa, na Vila da Penha, e do meu pai pegando o passarinho pelo paletó. Eu devia ter uns quatro anos. Logo depois eu me mudei dali com a minha família, e fomos morar no Engenho Novo.

Eu não me recordo dessa casa no Engenho Novo, salvo a sua cozinha. Isso porque nela ha a imagem indesfiguravel da minha mãe cortando carne no lusco-fusco da tardinha, num daqueles instantes que duram até hoje, até sempre. Virei para ela e perguntei "Mãe, você é Flamengo, né?" Ela respondeu que sim, e eu disse "Eu também sou Flamengo".

O meu pai é vascaíno, e havia selado um pacto com a minha mãe rubro-negra (cujo pai, meu falecido avô Lauro, era tricolor): ninguém iria me dar presentes de time até eu decidir por conta própria. Como meu pai rompeu unilateralmente o acordo, comprando-me sei-la-o-que do Vasco, minha mãe apressou-se a comprar o uniforme inteiro do Flamengo - o qual, mais tarde, ela foi dar (inautorizadamente) para o filho da faxineira lá de casa. Tudo bem, o garoto deve ter ficado muito feliz. Eu fiquei triste de perder a minha primeira camisa do Flamengo, isso não se faz. Era aquela camisa branca com as mangas em vermelho e preto.

Só sei que não me lembro dessas pressões de pai e mãe terem me influenciado decididamente. Naquela cozinha, nos idos de 1987, brotou, não se sabe lá muito bem da onde, aquilo que em mim foi objeto de maior constância ao longo de toda a minha vida. Sem duvidas.

Depois foram infinitos momentos. Eu escutava, sozinho no meu quarto, os jogos por um radinho. Ficava deitado no chão com o ouvido grudado, como se o radinho fosse um travesseiro. Quando o Flamengo perdia, eu chorava.

Numa ocasião eu ganhei um carrinho de ambulância de plástico, esses brinquedos vagabundinhos, mas aos quais as crianças se apegam sem muitas explicações. Era uma ambulância no modelo Gran Caravan, vocês devem lembrar. Pois é, ai um dia o meu pai veio me dizer que aquela ambulância levava o Zico dentro - para quem não se recorda ou não sabe, o galinho teve a perna quebrada em uma entrada criminosa do Marcio, do Bangu, em 85. Eu fiquei muito impressionado com o que o meu pai me disse, e imaginava a situação do Zico na ambulância.

Em 92, na final do campeonato brasileiro, Flamengo x Botafogo, era também o aniversario de alguém lá na casa dos meus padrinhos. Porra, eu só queria uma coisa, e não era pedir muito: ver, ou, ao menos, ouvir o jogo. Como as pessoas pareciam estar cagando solenemente para a decisão, me fechei num quarto lá e escutei a partida num radio toscão. Mas deu pra escutar os três gols que o Mengão meteu no Botafogo, tendo praticamente assegurado a fatura. Naquele quarto, reclamando do barulho e sendo repreendido por reclamar, eu tive certeza de que as pessoas não sabem aquilatar a dimensão de uma final de campeonato brasileiro. Mais do que isso: que elas não sabem aquilatar nada! E olha que o meu olhar, mesmo com tão tenra idade, era clinico para isso. Em 1989 eu chorei, também lá em Inhaúma, ao término da apuração das eleições em que estava confirmada a derrota do Lula (mesmo tendo o meu pai feito campanha para o opositor). Deu no que deu, e eu já sentia o que significavam essas coisas desde aquele tempo.

Pois é, agora chegou mais um daqueles instantes para cuja grandeza apenas um cego espiritual não consegue render o devido valor. Essa semana já não faz mais sentido nenhum, ela começou no domingo e só volta a existir outra vez no domingo vindouro. Aliás, esse será, parodiando o historiador, o breve ano de 2009, que começou no carnaval e terminara no domingo, dia 6 de dezembro. Queiram os deuses do futebol, os deuses do Maracanã, que o breve 2009 também acabe em carnaval. Mais do que isso. Em o Flamengo levando esse titulo tão feito para ele, tão alma-gêmea sua, o 06 de dezembro do breve 2009 será dia em que vira ao mundo uma nova forma de manifestação, algo como um carnaval-reveillon-título de copa do mundo ao mesmo tempo, diferente e maior, muito maior. Vai ser, em todos os sentidos, sinistro.

No 06 de dezembro estaremos aqui em Paris eu, Do e seu irmão Olavo, Guilherme e seu camarada, todos conectados pelo skype com o Gugu, em Barcelona, para testemunharmos, todos juntos, esse momento de ruptura do espaço-tempo. Muitos de vocês irão presenciar pela primeira vez o alarido ensurdecedor de um fenômeno de massas incontrolável, um desses tipos que apenas são superados pelas revoluções. Aos demofóbicos, aconselho subirem para a serra. Melhor, aconselho saírem do país. Mas, honestamente, acho que o mais legal é sair de casa e sumir na massa para ver a historia se fazendo nas ruas.

Saudações,

Dudu

Um comentário:

Anônimo disse...

Boas memórias... Muito lindo!
Mari Olinger.