sábado, 27 de fevereiro de 2010

minutos de frivolidade: XXXIII



Dois versos tristes
escorrem pelas paredes
do edifício vago
da memória.
As bestas logo chegam
– num balé mudo –
cheiram seus pés
e lambem os cantos
de suas bocas secas.
Repousam ungüentos frescos
Sobre as feridas em flor
e encontram um pouco
de aguardente
para matar a sede.

Já algum sorriso é possível,
já algum prazer em deitar-se ao sol.

Eu fico à espreita.
Ataco, por fim, um tanto afoito.
Feroz, lhes vasculho
as gargantas, os pulmões.
Reviro-lhes as tripas
chupo os ossos
sugo fluido por fluido
a indagar por um segredo
que resta oculto, inaudito.
Abandono suas carcaças
rotas, dilaceradas.
Não lavo nem as mãos
nem a boca.
Deito e durmo.

Já não há mais do que comer e beber,
não mais que olhar pela janela.

2 comentários:

Cinthia Gomes disse...

Meu querido D'Abô,
sinto-me soberbamente honrada quando dizes que escrevo bem - não mereço tanto, elogios de um poeta! E muitíssimo mais feliz de desfrutar de sua amizade. Eu e minha cozinha esperamos ansiosas sua visita e de Ísis. À propósito da escrita, fazia muito tempo que não lia seus poemas, estão diferentes. Estão mais reflexivos e palpáveis, mais ligados ao cotidiano, acho. Preciso de mais tempo para degustar. Bisou.

André D'Abô disse...

cinthia querida, minha cara destemperada:
escreves como cozinhas: uma delícia! quanto a minha escrita, tens razão; mudou muito. o blog é meio uma retrato dessa fase nova.
deguste a vontade.
beijocas!