quarta-feira, 29 de maio de 2013

aniversário

Daqui a três dias, eu faço aniversário.
Vinte e quatro anos.

Sobrevivi à luta entre as bactérias e os meios hostis
Rolei entre garras sujas de carne fresca
A seta entre os olhos e a presa
O grito bestial e o silêncio da digestão
A agonia dos sexos se esmagando
A dor e o esquecimento
O prazer sem dia seguinte
As sementes rompendo lentamente a face suave da romã tardia
As mangas apodrecendo nos fundos baldios da casa abandonada
O abandono dos corpos ao sono
As palavras que não foram ditas
O amor fugaz entre a vela e o vento
O porão do navio negreiro
A fome noturna e o pátio da fábrica
O espetáculo ruidoso dos ônibus lotados rumo ao centro da cidade
A dissolução da multidão nervosa
A forja diária do real pela notícia
(Cada manchete
uma martelada no aço quente do cotidiano
sobre a bigorna fria do cansaço).

Vinte e quatro anos.

Acordei exausto
Em algum lugar da minha infância
Com a barriga cicatrizada
Onde haviam cortado e enterrado um segredo
Do qual a única pista que tenho
É o tempo e seus sintomas,
Cuidadosamente mensurados:


Vinte e quatro anos.

Um comentário:

XD disse...

E viu como sobreviveu?