quinta-feira, 11 de julho de 2013

um poema ao poema sujo

Da primeira vez
que li
o Poema Sujo
– eu li de pé
numa livraria
no centro da cidade
em hora de almoço
em que eu tinha
um fastio enorme,
eu tinha um medo enorme
da vida que eu tinha
que viver –,
eu fiquei contente
com a vertigem
que descontenta,
porque era a vertigem
das coisas mesmas,
afrontadas
constrangidas
envenenadas
pela memória;
não era aquela
fabricada
no labirinto pedante
de notas de rodapé.

Eu traía o autor
porque o Poema Sujo
purificava
limpava
lavava
a alma
que eu estendia
no varal
para refrescar o ar
com os lençóis
brancos
que ventavam
em Buenos Aires
ou na Lisboa
futura
de céu azul
puríssimo.

Eu voltava ao trabalho
num Boeing
sobre o Atlântico
com um naco
do Maranhão
no bolso.

Um comentário:

isadora disse...

Belo!!!