domingo, 23 de março de 2014

lacuna

Verdade.
Capacidade de ver.
Prescinde de olhos
verdes obstinados.
Enfiar as mãos
bem fundo
bem forte
na fresta do mundo.
Palmilhei no escuro
em busca de um vazio
para apoiar minha omoplata.
Como um peixe
fisgado pela língua
sacudi a cauda
estrebuchei
por um pouco de água
que me lavasse a fronte
e me afogasse os pulmões.
Fiz orações
para um deus doméstico
que se esconde
atrás dos móveis
e entre as páginas dos livros
que nunca tirei da estante.
Um deus criança
um deus paisagem
um deus aroma
que me abrisse os olhos.
Mas eles permanecem cerrados
e só o coração
cão sem faro
tem alguma serventia.
Há um grão de areia fina
que me arranha o peito
sem que da ferida
resulte pérola ou hematoma.
Um corte mudo
que não sangra
não dói
nem cicatriza.
Assim é a lacuna
que se impõe.
Por isso
minhas mãos vacilam
angustiadas
espalmadas
a procura de outras mãos
de um oceano
que trasborde tudo
que engula tudo
que seja tudo.

Nenhum comentário: