segunda-feira, 13 de julho de 2015

sem título 1

Passamos.
Entreolhando coisas.
A infelicidade
Dos que têm olhos de rapina
Pregados
Na frente da cara.

Nem os cegos
Talvez
Tenham o privilégio
De algo mais
Do que uma superfície
Sem cor.

Esse pano oco.
Menos que pano.
Menos que tronco.
Não é mais
Do que o discreto relevo
De um monturo de nomes:

"Rosto" "torre"
"Dia" "vulto" "parede"
"Escada" "cancela"
"Memória"

Balbuciamos
Diante do abismo sem eco.
Um furo que é também
A precipitação
De tudo
Em nada.

Houve um tempo em que pensei
Que não havia maior desgraça
Do que jamais ouvir
As lindas canções que ouvi.
Mas há quem não tenha o sabor de sequer uma nota
E tenha os olhos mais vivos que os meus.

Talvez fosse melhor
Desmontar esse edifício
Que nunca houve.
Deixá-lo desmoronar
Sem nunca ter sido erguido.
Tombar leve, discreto.

Mas não há jogo melhor
E mais antigo
Do que traçar
Essa curva invisível.
Abrir e fechar os olhos.
Fechar e abrir a boca.

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